Futuro do Brasil

 
 

Brasil 2022

Socialmente Justo?

O Brasil de 2010 estará socialmente mais justo do que em 2003?

Pelos indicadores, sim. Mas e como realidade?

Um Brasil socialmente mais justo em 2010 é resultado do Governo Lula ou um legado dos governos anteriores? Qual será o legado que Lula deixará, nessa dimensão? Quais serão as diferenças de propostas entre os candidatos para fazer um Brasil Socialmente mais justo, em 2022?

O que caracteriza uma nação mais justa? Do ponto de vista global, usa-se o coeficiente de Gini que mediria a desigualdade. Capta a diferença de rendimentos entre as familias mais pobres e as mais ricas, variando entre 0 e 1. Quanto mais alto, maior a desigualdade: uma única família deteria a totalidade da renda, nada ficando para os demais e zero quando todos tivessem a mesma renda. O índice Gini é o coeficiente multiplicado por 100.

O último levantamento - referente a 2008 - indica um índice de 54, o que caracteriza um alto índice de concentração e, portanto, socialmente injusto.

A distribuição de renda é apenas um dos itens de um país socialmente mais justo. É também fundamental a igualdade de oportunidades de acesso que não dependam - exclusiva ou predominantemente - da renda. Principalmente à educação básica e à saude.

No caso da educação, as oportunidades existem, com exceção ainda da população infantil moradora em comunidades rurais, com dificuldades de acesso às escolas. O problema está na qualidade do ensino o que resulta em baixa produtividade e manutenção de um grande número de analfabetos, ainda que funcionais. Os quais tem menores oportunidades de trabalho.

Na saúde pública, os serviços ainda são precários. Um primeiro problema é a distância de uma unidade de saúde dos locais de moradia da população mais pobre. Em segundo, a oferta é insuficiente, gerando grandes filas e demoras para o atendimento.

O que será necessário fazer para que o Brasil em 2022 seja - efetivamente - socialmente mais justo? Que diferenças estratégicas ou programáticas podem ter PT e base aliada e PSDB/DEM ou o PV em 2010?

A tendência será dizer que fará melhor ou que destinará mais recursos para educação e saúde. Ou ainda, que esses setores são prioritários.

A trajetória das ações sociais nos Governos Lula, pouco diferem da gestão anterior (FHC) a não ser em intensidade.

O principal fator de melhoria social foi a estabilidade monetária, com a melhoria generalizada de renda. Dentro desse quadro, o Governo Lula acelerou a recuperação de valor do salário mínimo, a ampliação do Bolsa-Família (Bolsa-Escola na gestão anterior) e universalização de atendimento do LOAS (Lei Orgãnica da Assistência Social) que garante uma renda mínima para aqueles fora do Sistema Previdenciário.

Todas essas medidas podem passar para a discussão do "quem faz ou fez melhor", mas nenhum deles deixará de dar continuidade, apenas prometendo fazer melhor.

Fazer melhor o que já vem sendo feito será suficiente para que o Brasil seja socialmente mais justo em 2022?

Que outras novas medidas ou estratégias precisarão ser adotadas?

Há alguns pontos controversos com o das cotas para os "desfavorecidos", as mudanças nos benefícios previdenciários e na legislação trabalhista.

Em relação às cotas o que cabe avaliar - excluindo as distorções pontuais - qual o resultado efetivo de melhoria de oportunidades dos então "desfavorecidos" sejam os negros, estudantes de rede pública, indígenas e outros.

Já em relação às mudanças previdenciárias é preciso considerar que a melhoria para a base terá sempre um impacto social favorável, ainda que custe mais para o erário público e, em consequência para os contribuintes. O problema é que os "marajás" da previdência sempre usam a base para melhorar as suas aposentadorias milionárias. São essas que pesam mais.

O PT, junto com a base aliada, propõe um sistema mais distributivo. A resistência está dentro do próprio Governo Lula, segundo uma visão de futuro. As medidas vão impactar o caixa do Tesouro nos próximos governos, que poderão ser do próprio Lula ou do PT. O PT cometeu esse erro, ao recusar a aprovar a Reforma Previdenciária de FHC e teve que conviver com o déficit previdenciário (com sacrifício dos investimentos) minorado pelo fator previdenciário.

Com a eliminação desse, vai de encontro com a tendência universal, cada vez mais preocupada com o evelhecimento da população. Dentro da sistemática atual, agravada pelas alterações em curso, no futuro, cada vez mais jovens trabalhadores terão que arcar com a aposentadoria e pensão dos mais idosos, ociosos.

Nesse ponto está o principal risco do lulo-peronismo, com o fortalecimento das lideranças sindicais demagógicas: "quebrar" o Estado, com as concessões de benefícios sem geração de renda.

O lulo-peronismo irá engolir o próprio Lula.

 

 
 

Brasil 2022

Brasil 2010, resultado de um plano?

O Brasil de 2010 deverá ser um pais economicamente mais forte que o de 2000 e que o de 1995.

Será o resultado de um plano estratégico ou de um Projeto Nacional, formulado em 1995 com o Plano Real?

Seria o resultado de circunstâncias, ou de acaso?

Diversamente de planos de metas, com a definição de indicadores para um momento futuro, o Plano Real seria um plano de trajetória. Busca-se, num momento então presente, corrigir trajetórias que resultam em condições favoráveis, no futuro, independente de medidores fixos. No caso, o objetivo seria uma economia livre de inflação. Com isso estaria forte para crescer continuamente e superar as crises.

Essa trajetória, vem sendo cumprida desde então e o país já enfrentou duas grandes crises internacionais: uma em 1999 e outra em 2008-09. Não naufragou, manteve a sua trajetória de crescimento - ainda que mais lenta - e saiu mais forte da crise.

Diante disso, qual seria o plano estratégico para 2022? Ou a dimensão econômica de um Projeto Nacional, para esse marco temporal?

O Projeto BRASIL 2022, empreendido pelo PNBE - Pensamento Nacional das Bases Empresariais - do qual participo, define essa dimensão do Brasil que Queremos, como "Economicamente Forte".

Dentro que foi a trajetória dos últimos 15 anos, poderiamos dizer que não é preciso plano algum. Basta continuar a trajetória e manter o país, livre de inflação. Assegurada essa condição básica, continuará se fortalecendo e será em 2022, um país economicamente forte.

2010 é um ano de eleições gerais e poderia haver um confronto de propostas de trajetórias. A situação poderia propor a continuidade de uma trajetória que está dando certo. A oposição poderia criticar, se opor, mas não pode, porque essa trajetória foi definida por ela, quando Governo.

As diferenças seriam em detalhes ou em instrumentos, também sem maiores diferenças. Mesmo a questão da privatização, na realidade, apresenta poucas diferenças.

A disputa se faz entre "quem fez ou faz melhor". Um disputa quase infantil: "eu comecei, você está me copiando", dizem os "tucanos". "Eu fiz muito melhor que você", diz o atual Governo (que não pode ser caracterizado como petista, mas quando muito como lulista).

"Você está gastando demais e vai comprometer as contas públicas. Com isso a inflação vai voltar e a economia vai enfraquecer", acusa a oposição. "Inveja sua, porque estamos indo bem, muito melhor que vocês, quando Governo".

Não haverá, nesse sentido, uma disputa programática estrutural em 2010, com relação à economia. Será entre quem faz melhor.

A decisão não será dos economistas, dos analistas ou dos supostos "formadores de opinião". Será do eleitor, do povo e, nesse caso, o Governo leva vantagem. A imagem de uma economia mais forte mostrada pelo Governo atual é mais forte que a do governo anterior, já esmaecida.

Mas, do ponto de vista pessoal, o Governo leva desvantagem. Serra tem a imagem de quem começou (ainda que não corresponda aos fatos). Dilma é uma paraquedista dentro da dimensão econômica. Aécio tem pouco passado - perante o eleitor nacional (pois ainda é um político regional) - mas tem a possibilidade do futuro. Não entraria na disputa entre "quem fez", mas "quem fará".

Qualquer que seja o eleito dificilmente terá condições de mudar a trajetória e, com isso, o Brasil de 2022 será mais forte que o de 2010. A menos que o mundo acabe antes. Mas se o mundo vai acabar, qualquer plano não faz sentido.

O único risco é da incompetência. Das "barbeiragens".

 
 

Apagão

Vitrine ou vidraça?

Com a escolha do Brasil para sediar jogos da Copa 2014, participei de uma "caravana rolidei" que visitou 16 das cidades candidatas para conhecer o que essas cidades ofereciam e, também, os seus problemas e desafios. O que resultou, entre outros produtos, numa publicação com o título "Vitrine ou Vidraça - Desafios do Brasil para a Copa 2014".

O que se procurou mostrar nesse processo é que a Copa 2014 (e posteriormente as Olimpiadas 2016, no Rio de Janeiro) passaria a dar uma grande visibilidade ao Brasil no exterior. E que isso poderia ampliar o fluxo turístico, assim como o de investimentos.

Efetivamente o Brasil passou, depois da escolha do Rio para as Olimpiadas de 2016 a ter mais espaço e destaque na mídia internacional. Mais com as suas vidraças do que com as suas vitrines.

No mês passado foram os violentos confrontos entre quarilhas e com a polícia, no Rio de Janeiro. Agora com o enorme e imenso apagão.

A versão do Governo pode até estar certa, quanto à origem, mas foi a pior das alternativas, do ponto de vista do marketing de um país que quer sediar a Copa e as Olimpiadas.

Se um apagão que afetou 18 estados brasileiros, entre esses os principais e mais a Capital Federal, e durou mais de quatro horas, foi causado por raios e ventos, "raios que te partam", então só há uma conclusão: o sistema é vulnerável. O sistema é frágil.

Haveriam duas sequências imediatas: é preciso fazer investimentos e interligar o sistema.

A questão é que depois do apagão de 99 foram feitos investimentos no sistema de transmissão e interligados os sistemas. O Brasil tem um sistema interligado de energia elétrica, que nem os EUA tem.

Houve um grande volume de investimentos, com a privatização dos sistemas de transmissão. As novas linhas foram objeto de concessões. A CTEEP a maior rede de transmissão estadual foi privatizada. Mas a ligação de Itaipu ao Sistema, permaneceu estatal, sob controle de Furnas. Foi nessa que iniciou-se o processo.

Acidentes climáticos podem afetar o sistema apesar desse estar "blindado", com pararraios e estruturas mais fortes para suportar temporais e até tornados.

E, uma das razões para o sistema interligado é limitar o efeito dominó. Quando ocorre uma sobrecarga os circuitos são automaticamente desligados, mas a intervenção humana promove o imediato restabelecimento com o uso das fontes alternativas.

Apesar de todas as salvaguardas, a interrupção de uma das linhas, por fatores climáticos, pode ocorrer, sobrecarregando as demais, que vão sendo automaticamente desligadas, até chegar a pontos onde já não existe a sobrecarga. Ai são promovidas as redistribuições de carga, dentro do sistema interligado. O que envolve a ação humana.

A incompetência humana, no caso, foi a demora no restabelecimento. Essa é a grande vidraça que foi mostrada ao Mundo, no dia de ontem e continuará ainda no dia de hoje.

Identificar a "origem inicial" do apagão é o menos importante. O importante é saber por que se espalhou tão amplamente e por que demorou tanto para restabelecer.

O Governo está querendo vender a versão de que a culpa é do sistema interligado, quando o objetivo desse é exatamente o oposto. Com o sistema interligado busca-se conter o efeito dominó e não propagá-lo.

 

 
 

Copa 2014, Olimpíadas 2016

Quanto vai ficar?

Com a escolha do Brasil como sede dos jogos da Copa 2014 e do Rio de Janeiro como sede das Olimpíadas de 2016, o país, mediante a entidade representativa (CBF e COB), com o aval do Governo Federal e de Governos Estaduais e Municipais, assumiram compromissos, que vão muito além da organização dos eventos.

Os compromissos envolvem investimentos diretos em equipamentos esportivos, incluindo a infraestrutura para a mída e convidados. Devem ser promovidas ofertas suficientes de hospedagem para os turistas e os serviços para a sua movimentação, com a adequada infraestrutura.

Além dos investimentos os Governos devem isentar todas as operações diretamente envolvidas com o evento, como os impostos de importação ou de circulação das mercadorias dos produtos trazidos para os jogos. E há ainda outros compromissos menores.

Há uma natural curiosidade sobre o quanto o país irá gastar com esses mega eventos esportivos internacionais. Para a Copa 2014 o Governo Federal firmou um convênio com a ABDIB para levantar as necessidades e definir um plano de aplicações, que até hoje não veio à tona, alimentando especulações.

A mídia busca informações esparsas e vai somando até chegar a números fabulosos como as publicadas ontem no Estadão (O Estado de São Paulo, 18-10-09, pg B1) alcançando R$ 130 bilhões, que resultam de R$ 100 bilhões para a Copa 2014 e R$ 30 bilhões adicionais com os Jogos Olímpicos.

São número apenas para chamar atenção e vender notícia. Servem mais para despertar indignação do que aprovação. O viés da notícia é nesse sentido.

O quanto vai se gastar tem importância em função da capacidade de levantar os recursos para a realização dos investimentos previstos ou indicados. Se o Brasil tem capacidade de levantar tal volume de recursos é um bom sinal. E se é mais do que foi investido pelo Governo (Federal) em sete anos, melhor ainda. Significa uma forte capacidade de recuperação dos investimentos públicos.

A questão maior não está ai, mas de onde virão os recursos e no que serão gastos.

Para receber a Copa 2014 os investimentos essenciais são nos estádios que, por abrigarem, uma atividade econômica poderiam ser investidos pelo setor privado. O futebol é um dos poucos esportes no Brasil, capaz de atrair um público permanente para assistir aos jogos semanais, com o pagamento de ingressos. Tanto que em três das doze cidades escolhidas, o estádio sede dos jogos pertence a um clube.

Na prática, no entanto, nenhum dos clubes privados tem interesse em investir a totalidade necessária para atender às exigências da FIFA. Porque uma parte desses investimentos é para atendimento exclusivamente para os jogos da Copa, com instalações que podem ser temporárias. Sem retorno para o investidor porque toda eventual receita será da FIFA.

Por outro lado, na maioria das cidades a atividade futebolística não rende o suficiente para amortizar os investimentos. Em alguns casos, nem mesmo para os custos operacionais. São inviáveis do ponto de vista econômico privado.

Diante da inviabilidade privada, os Governos Estaduais e Municipais que assumiam compromissos para ganhar o direito de sediar jogos terão que investir com recursos orçamentários, contando - eventualmente - com financiamentos do BNDES e ainda a esperança de reforço de aportes federais, a "fundo perdido". Para isso tentarão canalizar as emendas parlamentares, individuais, ou de blocos para os investimentos nos estádios. Apesar de não terem sido contemplados na Lei de Diretrizes Orçamentárias para 2010.

O que pode sobrar para essas cidade é um "elefante branco", com pouco uso.

Para atender à FIFA, as cidades-sedes deverão prover uma quantidade de quartos-leitos suficientes para receber a previsão de turistas. O investimento deverá ser privado, o que envolve a viabilidade econômica dos empreendimentos. O que poderá ocorrer nas cidades com turismo de lazer, mas mais difíceis em cidades baseadas no turismo de negócios. Existe ainda o risco de "elefantes brancos".

O problema maior está na infraestrutura pública, de responsponsabilidade do Poder Público o que poderá ser empreendido com recursos orçamentários ou com parcerias público privadas, de forma plena (concessões) ou parciais (parcerias público-privadas).

O mais crítico está na infraestrutura aeroportuária, onde o Governo Federal reluta em adotar mecanismos de privatização, ainda que parciais.

Os demais investimentos em infraestrutura pública não são essenciais para a realização da Copa 2014. Essa é utilizada como pretexto para a sua realização. Até porque são necessários para atender às demandas reprimidas.

Os investimentos essenciais para garantir a realização da Copa 2014 no Brasil, atendendo às exigências da FIFA, não precisa ultrapassar R$ 20 bilhões, dos quais entre R$ 5 a 6 bilhões para os estádios e seus entornos, outros R$ 5 a 6 bilhões para a infraestrutura aeroortuária, R$ 2 a 3 bilhões para a infraestrutura hoteleira e o restante para a melhoria do atendimento de saúde, de alto nivel, acessibilidade e mobilidade urbana.

Os investimentos em energia elétrica e sistema de telecomunicações não são específicos para a Copa 2014, nem são divísiveis para atendê-la. A menos do reforço de algumas redes de distribuição que atendam à região dos estádios.

Tudo o mais que se queira investir, principalmente na mobilidade urbana pode ser necessário. Mas não deve ser para atender à Copa 2014, mas para melhorar as condições gerais de funcionamento das cidades e melhorar as condições de vida da sua população.

O que não se justifica são investimentos públicos voltados exclusivamente para atender a um evento de 30 dias e que depois fiquem sem uso.

 
 

Olimipiadas 2016

 

A superação da grande degradação

É preciso se aprofundar nos fundamentos para entender a degradação da economia carioca que se reflete no urbano da cidade do Rio de Janeiro e nos seus problemas sociais, de segurança e de como as Olimpíadas de 2016 podem reverter esse processo.

Os acontecimentos de ontem, com a disputa entre quadrilhas pelos pontos de tráfico, com interferência desatrosa (pelos resultados humanos) da Policia, resultando no abate de um helicoptero militar e vários mortos, são indícios de que a economia do tráfico de drogas é uma atividade de grande importância econômica para a cidade.

Não é uma atividade marginal - dentro dos conceitos econômicos - ainda que desenvolvia por marginais - no sentido criminal e social.

O tráfico de drogas seria uma atividade altamente rentável e distribuidora de renda, dentro das comunidades pobres do Rio de Janeiro. Ainda irrigaria toda uma cadeia de corrupção, cuja renda vira consumo legal e formal e mesmo investimentos, muitos deles conspícuos.

Provavelmente tem uma grande importância no PIB real do Rio de Janeiro, o que tem dois significados: de um lado ocupou espaços econômicos pela falta de outras alternativas e de outro a sua erradicação geraria uma perda de renda e desemprego (ainda que não formal). O problema não está apenas no traficante, mas em todo o exército de pessoas que vivem ou sobrevivem da renda dessa atividade econômica ilegal.

Para superação do grave problema do tráfico de drogas não basta a ação policial. É fundamental o seu tratamento dentro de um planejamento econômico.

Como toda atividade econômica, a sua sustentação está no comprador, no consumidor da droga que transfere a renda obtida em outras atividades para alimentar a cadeia produtiva da droga. O chamado tráfico, nada mais é que a logística para fazer com que o insumo chegue ao consumidor final, na forma de frasco de cocaina, de crack, de pílulas de ecstasy e outros produtos. A atividade gera os consumidores internos. Nesse caso é uma circulação da própria renda da cadeia produtiva da droga.

Para a eliminação dessa atividade econômica, ou a sua contentação para que torne uma atividade marginal - também no sentido econômico - é preciso atuar sobre a ponta do consumo: seja o consumo final, como a distribuição a esse consumo final.

Não há ainda muita clareza sobre quem são esses consumidores finais, qual é o movimento global e de onde vem a renda para o seu consumo. A existência de consumidores dentro da própria cadeia obscurece a percepção e esses precisam ser separados.

Há uma suposição de que os principais consumidores estão na classe média e rica do próprio Rio de Janeiro. São esses que desviariam parte dos seus salários ou da renda imobiliária ou mobiliária para o consumo de drogas.

É preciso conter o consumo e o mecanismo principal, do ponto de vista estratégico, é torná-lo mais caro. A repercussão inicial será negativa, pelo desvio maior de renda por parte dos viciados. Problemas particulares se agravarão. Mas haverá uma redução de consumo ao qual se seguirá a redução do volume de movimentação financeira.

A redução da atividade econômica da cadeia produtiva da droga, resultará - ao longo do processo - no aumento da violência. A disputa pelos consumidores remanescentes e pontos de distribição será sangrenta. O processo é de guerra.

Segundo as autoridades cariocas os embates de ontem já seria reflexo dessa contenção da atividade econômica dos negócios da droga. Até pode ser. Mas nesse caso, caracteriza-se o despreparo ou a incompetência policial no seu enfrentamento. O que teria sido reconhecido pelo próprio Secretario da Segurança.

Ao conter o consumo da droga, o objetivo estratégico poderia ser a geração ou ampliação de outros consumos, legais e mais saudáveis, capazes de absorver essa renda e movimentar outras cadeias produtivas.

 

Que cadeias produtivas poderiam ser essas? Como promover a substituição do consumo?

Não se pode ficar apenas no desejável. É preciso trabalhar com o possível. E segundo uma perspectiva estratégica.

Com um horizonte de longo prazo, mas com marcos em 2013 e 2015, um ano antes da Copa do Mundo e das Olimpiadas.

 
 

Olimpíadas 2016

A transformação de Barcelona

Retomando a questão de ontem, sobre o legado de Barcelona com as Olimpíadas de 1992, houve um processo pouco visível para os turistas, para os urbanistas e para a mídia, mas que explica a sua transformação.

A Catalunha se desenvolveu como um polo industrial, mas com separação física entre as áreas industriais e a cidade, onde se situavam os serviços, a administração pública, a moradia dos mais ricos e da classe média. Como em muitas outras cidades e regiões, a renda é gerada num ou mais espaços e o uso dela em outro, um centro.

No Brasil há inúmeros casos, como de Florianópolis, uma capital tipicamente administrativa, com atividades terciárias, mas cuja renda estadual é gerada em polos industriais do Vale do Itajai e outros e do agronegócio, situado no leste do Estado. Curitiba se desenvolveu urbanisticamente, com base no agronegócio situado fora da visão dos curitibanos e de seus visitantes.

Essa condição permitiu que Jaime Lerner emergisse como um grande urbanista, mas que é também o responsável pelo inchamento de Curitiba, ao promover a atração da indústria para a sua região metropolitana, quando Governador do Estado.

A indústria espanhola entrou em crise, na década de setenta, e a cidade de Barcelona vinha sofrendo uma degradação, pela redução do afluxo de renda para a cidade.

O planejamento estratégico formulado ainda nos anos oitenta, teve por objetivo revitalizar a economia espanhola, com o apoio da Comunidade Européia - com o objetivo de eliminar os bolsões de pobreza no oeste europeu, concentrados em Portugal e Espanha - substituindo a base industrial pelos serviços voltados tanto para a demanda interna, como para os turistas.

O turismo não se limita aos atrativos naturais, ao lazer, mas tem grande força nos negócios e no cultural, incluindo o educacional.

Esse foi a real grande transformação promovida pela Espanha e pela Catalunha com as Olimpiadas de 1992, que se refletiu na revitalização e renovação urbana. Essa não se sustentaria pós Olimpiadas se não mantivesse ou expandisse o afluxo de renda, agora dos serviços e do turismo, substituindo a renda industrial.

A visão focada sobre o urbano, a parte mais visível fisicamente, mostra os resultados, mas pouco explica dos seus fundamentos.

Muitos ficaram repetindo o caso - como nós mesmos - sem o conhecimento mais profundo do processo.

Sem a trasformação econômica, não há transformação urbanística.

 

 

 
 

Olimpíadas 2016

Rio de Janeiro - Planejamento econômico

As Olimpíadas 2016 darão um grande alento ao Rio de Janeiro, mas não devolverão a ela a condição de Capital Federal. E, com isso, uma grande destinação de recursos tributários captados em todo o país e utilizados no Distrito Federal. O Rio de Janeiro, mesmo depois das Olimpíadas, voltará a ter o brilho da Capital Federal.

Poderá se mirar na experiência de Barcelona que não é, nem nunca foi, Capital Federal.

Para aproveitar a oportunidade da realização dos Jogos Olímpicos e do grande volume de recursos a serem aplicados nas instalações esportivas e infra-estrutura o Rio de Janeiro deverá ser objeto de um planejamento econômico que objetive criar condições de sustentação econômica pós Olimpiadas 2016.

O ponto de partida deverá ser a avaliação das vocações econômicas que poderão proporcionar um crescimento econômico sustentado ao longo de todo o tempo.

A atividade esportiva - com exceção do futebol - não será sustentável economicamente. Parte das instalações esportivas construídas ou a serem construídas para as Olimpíadas, ficarão posteriormente ociosas. Não serão elas que darão a sustentação econômica ao crescimento do Rio de Janeiro. Haverá um efeito momentâneo, com riscos de sequelas, como a fixação dos desempregados das obras.

O efeito mais direto da realização das Olimpiadas estará no aumento do fluxo turístico de lazer. As belezas naturais do Rio de Janeiro são o seu principal atrativo para o turista internacional. Não precisará criar atrativos artificiais e, com isso, poderá se dedicar à construção de uma infraestrutura para bem atender aos turistas.

A primeira delas, está nas portas de entrada, seja aérea ou marítima.

O aeroporto internacional Tom Jobim deve voltar à condição de ser a principal porta de ingresso dos turistas internacionais, perdida para Guarulhos, por conta do polo de emissão de turistas brasileiros com destino ao exterior.

Sendo São Paulo o principal centro emissor as Cias aéreas deslocaram e ampliaram os seus pousos no aeroporto paulista, ainda que os principais destinos efetivos dos turistas ainda sejam o Rio de Janeiro e Foz do Iguaçu.

A seleção do principal "hub" aeroportuário não é função do turismo receptivo, mas do emissor. O Rio de Janeiro precisa reverter o jogo. O que não será fácil, pois a maior parte da renda dos que se dispõe a viajar para o exterior continua em São Paulo.

O Rio de Janeiro é a principal porta de entrada do turismo marítimo internacional, cujas características precisam ser melhor avaliadas.

No final de outubro já começam a vir, para o Brasil, os navios de cruzeiros, mas com quantos turistas a bordo?

Os navios ficam até março-abril, circulando pelo litoral brasileiro mas, preponderantemente, com turistas brasileiros.

Os que, eventualmente, vieram do exterior de navio, voltaram de avião. Assim como há os que chegam de avião para fazerem os cruzeiros e depois retornam de avião. Sendo assim, porque não fazer um porto marítimo de passageiros na Ilha do Governador?

Um terminal intermodal associado o aéreo com o marítimo?

No Carnaval há um afluxo pontual de navios de cruzeiros, carregado de turistas estrangeiros. Qual é o circuito que esses navios e turistas estão fazendo?

O plano estratégico para o turismo marítimo deverá cuidar para um movimento o ano todo e não apenas na "alta estação".

Só assim poderá conseguir que haja uma frota de navios de cruzeiro ancorada durante as Olimpiadas, servindo como infraestrutura de hospedagem temporária.

Um dos principais projetos do Rio de Janeiro é a revitalização da sua área portuária. Cujo tratamento é predominantemente urbanístico, carecendo de maior conteúdo econômico. Pelo menos pelo que já foi exposto.

Que atividades econômicas irão se sediar na área reurbanizada? Por que iriam se instalarar na área e não na Barra da Tijuca ou outro polo de negócios, dentro do Rio de Janeiro? Quanto tempo levará para a reocupação da área, com atividades mais rentáveis?

 
 

Olimpiadas 2016

O legado cultural dos Jogos Olímpicos de 2016

Com a escolha do Rio de Janeiro para sediar as Olimíadas de 2016 a opinião publicada se dividiu em torno do "complexo de vira-lata".

Os que mantém o referido complexo, criado por Nelson Rodrigues, como consequência da derrota do Brasil frente ao Uruguai, na Copa do Mundo de 1950, são céticos, duvidando da capacidade do Brasil em organizar tal evento, ou usando a má experiência dos Jogos Panamericanos, para dizer que não haverá legados positivos na infraestrutura, haverá superfaturamento e outras mazelas.

Do outro lado estão aqueles que acham que com as Olimpiadas de 2016 no Rio de Janeiro, o Brasil superará de vez o "complexo do vira-lata", transformando-se numa grande potência, com elevada auto-estima.

Para o horizonte de 2017, ou seja, pós Olimpíadas, há que se considerar preliminarmente que em 2014 será disputada a Copa do Mundo. O Brasil tem grandes possibilidades de chegar à final. No Maracanã. O resultado influirá muito sobre o ânimo dos brasileiros.

Com a conquista da estatueta chegará em 2016 com os ânimos redobrados. Se não ganhar, terá a oportunidade de se recuperar em 2016. Considerando, no caso, que haverá ainda a oportunidade de conquistar o título inédito em 2012 em Londres.

Para uma total "virada cultural" do brasileiro, para chegar a uma nova cultura, em 2017, com a superação total do complexo de vira-lata, o Brasil teria que se transformar numa potência esportiva, com um grande número de medalhas nas Olimpíadas.

Não temos muitas referências sobre a cultura chinesa em 2009, comparada com 2007, antes das Olimpiadas de Beijing. A China já vinha com um grande crescimento econômico e já sendo percebido pelo mundo como uma nova potência. As Olimpiadas a tornou mais conhecida, mas a crise econômica esmaeceu o seu legado.

Supondo que o Brasil não tenha um baque em 2014 e consiga realizar uma Olimpíada bem organizada (como foram os Jogos Panamericanos), ainda que não venha se transformado em potência esportiva, mas com boa perfomance, comparado com o seu histórico, o que será a nova cultura da opinião publicada?

Tomo como foco, sempre, a opinião publicada porque essa é visível, está expressa e impressa. A opinião publica é difusa, com muitas peculiaridades locais e regionais e só captável pelas pesquisas amplas de opinião, ou quando das eleições gerais.

O que será essa cultura, com a eventual superação definitiva do "complexo de vira-lata"?

Qual será o efeito sobre o crescimento econômico?

Qual será o efeito sobre a qualidade de vida do povo brasileiro, principalmente do povo carioca?

Poderia ser a cultura do "yes, we can". Ou seja, nos podemos, se quisermos.

Mas a primeira reação dos cariocas foi típica. A "esculhambação": "yes, we créu".

Lula, embalado com o seu poder já afirmou que "iremos acabar com as favelas do Rio de Janeiro".

Será que a vontade política será suficiente?

Dentro da nova cultura do "sim, nóis pode" poderemos vencer alguns desafios críticos como a erradicação definitiva do analfabetismo, ou da malária. Acabar com a pobreza, alcançar a universalização de atendimento dos serviços de água e esgotos, etc.

Quem irá comandar esse processo? Poderá ser o Presidente eleito em 2014.

Seria Lula?

Ele tem dado mostras de que quer.

Como continuidade ou com alternância de poder?

O PSDB tinha um plano de 20 anos no poder. Que conseguirá em São Paulo, mas fracassou no Governo Federal. O plano do PT poderia ocorrer com 8 anos de Lula, 4 de Dilma e mais 8 de Lula (de novo).

Um eventual Presidente da República eleito em 2014 e reeleito em 2018, seria o Presidente das Olímpiadas e o Presidente do bicenténário da Independência.

E poderá ser o Presidente da grande transformação brasileira.

É uma tentação demais para Lula.

 
 

Olimpiadas 2016

 

Rio de Janeiro do futuro

O Brasil, de há muito é o país do futuro. Um futuro que nunca chegava.

Talvez esse futuro chegue na próxima década, com a Copa 2014 e as Olimpiadas 2016.

O Brasil tem vocação para ser uma potência mundial, que tem parado na vocação.

A opinião publicada brasileira incorporou o "complexo de vira-lata", achando que não temos capacidade de realizar esse potencial, que não temos capacidade de fazer as coisas direito e que somos mesmo "vira-latas".

Todos os avanços são anulados pelos problemas. Os governos fazem muita propaganda sobre os fatos positivos, enquanto a mídia enfatiza os fatos negativos. Ou caracteriza os fatos como negativos. Para a mídia a garrafa está sempre meio vazia.

Dentro dessa perspectiva as más notícias vendem. As boas são consideradas apenas obrigações e não despertam interesse.

Esse processo negativista leva a comportamentos de acomodação: "não adianta fazer nada", "no final tudo acaba em pizza", etc. E também de desalento. Pesquisas feitas junto a adolescentes nas favelas do Rio mostrou que uma parte deles não estuda, tampouco trabalha. Acham que não vale a pena "ralar" por tão pouco. Não tem perspectivas. Acabam sendo presas fáceis da cadeia logística do tráfico de drogas.

A escolha do Rio de Janeiro como sede das Olimpíadas de 2016, seguindo-se à escolha do Brasil como sede da Copa do Mundo de 2014, começa a reverter essa perspectiva negativa. Mais ainda quando se tem notícia que a vitória não foi pelas vantagens naturais da cidade, mas por força de um bem desenvolvido trabalho de apresentação da candidatura e de um bem sucedido trabalho de lobby, comandado diretamente pelo Presidente da República, junto aos eleitores do COI.

O Brasil mostrou que tem capacidade de planejamento e de organização quando se dispõe a tal.

A autoestima do carioca deu um grande salto. E a do brasileiro também, apesar das rivalidades e das invejas. A conquista foi assumida pelo "Brasil" e não apenas pelo Rio de Janeiro.

O que fazer agora com essa reversão de expectativas. Não pode se transformar num ufanismo passageiro e irresponsável.

Os gestores da candidatura mostraram grande capacidade de planejamento para a conquista da sede dos Jogos Olímpicos de 2016. Tem que dar sequência com a mesma competência e profissionalismo. Contratando os mais competentes para o detalhamento do planejamento, para a elaboração dos projetos de arquitetura e engenharia, assim como dos estudos ambientais.

Para alcançar o futuro brilhante que poderemos ter (e não apenas esperar) é preciso desenvolver os investimentos previstos, com a maior seriedade. E dentro de um lema: "é proibido morder". 

 

 
 

Olimpiadas 2016

O Rio de Janeiro da riqueza

A riqueza de uma cidade se carateriza pela renda auferida pelas empresas e pessoas estabelecidas nela e que nela gastam, multiplicando essa renda.

O Rio de Janeiro é ainda a sede de grandes empresas, como a Petrobras e diversas das suas subsidiárias (BR Distribuidora, Transpetro e outras) a Vale, mas as suas unidades produtivas estão fora da cidade. Partindo da receita auferida pela venda dos seus produtos físicos, apenas uma parte dessa fica na cidade, na forma de remuneração dos seus dirigentes e empregados administrativos, de compras de fornecedores estabelecidos na cidade e do depósito ou aplicação do seu caixa central em agências bancárias sediadas na cidade. Cada uma dessas atividades remunera os seus empregados cuja renda é aplicada predominantemente na cidade, movimentando a sua economia.

A Vale não tem nenhuma mina no Rio de Janeiro. A sede na cidade é herança do período estatal.

Já a Petrobras tem instalações produtivas no Estado do Rio de Janeiro, mas já fora da região metropolitana, no seu litoral norte, em função da exploração do petróleo da bacia de Campos. Grande parte do pessoal que trabalha nas plataformas mora na cidade ou na região metropolitana, alimentando a economia regional.

Encomendas de navios e embarcações de apoio são produzidas nos estaleiros da região metropolitana.

Os principais grupos industriais tem sede ou instalações produtivas fora do Rio de Janeiro. Uma das exceções é a CSN, com sede na cidade e principais instalações industriais em Volta Redonda, dentro do Estado.

O Rio de Janeiro é o principal centro das empresas de telecomunicações, sediando a Oi, Brasil Telecom, Embratel e outras.

Dois grandes grupos nacionais são visceralmente cariocas e dão sustentação ao crescimento da economia carioca. O primeiro é a Rede Globo que, sob comando de Roberto Marinho, sempre concentrou os seus investimentos e operações no Rio de Janeiro. O Rio de Janeiro é o principal polo brasileiro de mídia. Cabe anotar que Roberto Marinho foi, enquanto vivo, o principal incentivador e patrocinador da candidatura do Rio de Janeiro como sede das Olimpiadas. Acreditava plenamente na revitalização do Rio de Janeiro, a partir dos jogos.

Ele está sendo sucedido por outro carioquíssimo, que segue a mesma creça de Roberto Marinho e investe seus milionários recursos na viabilização do Rio 2016.

Considerado por algumas fontes como o brasileiro mais rico, poderá ser o grande atrator de investimentos externos para o Rio de Janeiro.

Tanto a Copa 2014 como as Olimpiadas 2016 são mega eventos midiáticos e além do grande volume de recursos com a cobertura dos eventos poderão alavancar um novo patamar de audiência e de faturamento permanente.

Qual será o potencial de crescimento das empresas de mídia, em particular de televisão, para 2017?

E, como se distribuirá esse faturamento pelas empresas?

Qual será o impacto efetivo desse aumento de faturamento para a cidade?

 

 
 

Olimpíadas 2016

O Rio de Janeiro da Casa Grande e Senzala

A recuperação, renovação, requalificação (ou qualquer outro nome que se queira dar) do Rio de Janeiro só ocorrerá com o enriquecimento da sua economia.

Não como um dado estatístico, mas com o enriquecimento de pessoas (físicas e jurídicas). Não pode ser um enriquecimento temporário, baseado em grandes eventos como a Copa 2014 ou as Olimpíadas, mas continuado, sustentável. Esses eventos poderão alavancar o enriquecimento, porém precisam dar suporte à continuidade. Os Jogos Panamericanos deixaram poucos legados positivos para a cidade. As autoridades sempre justificaram os gastos adicionais como investimento para conquistar a sede dos Jogos Olímpicos de 2016. Conseguiram o intento. Mas, depois dos Jogos Olímpicos que outro grande evento mundial poderá se buscar? Não há sequência a médio prazo. Os investimentos na cidade para as Olimpíadas terão que estar voltados diretamente para o seu desenvolvimento sustentado.

O enriquecimento da cidade ocorrerá pela valorização patrimonial dos seus imóveis e da renda da sua população. O efeito perverso desse enriquecimento é que a vida ficará mais cara. Alguns terão aumento de renda para enfrentar esse encarecimento. Outros terão uma piora na sua condição de vida, por não conseguirem acompanhar esse encarecimento.

O enriquecimento levará a uma concentração territorial. Algumas áreas da cidade darão suporte aos mais ricos, com a consequente valorização patrimonial e melhoria dos serviços, sejam privados, como públicos.

A Barra da Tijuca já foi escolhida pelo mercado como a área preferencial da riqueza. E será o local da Vila Olímpica.

Terá uma "explosão imobiliária" que, provavelmente, já foi detonada nesse final de semana. Os imóveis na Barra já devem ter ficados mais caros, só por conta do anúncio das Olimpiadas 2016.

Essa concentração territorial inevitável traz três grandes desafios para a cidade:

A ordenação e o controle da expansão urbana na Barra pela riqueza é viável, apesar das fortes pressões dos interesses econômicos. A regulação urbana funciona para a riqueza. Mas pouco para a pobreza.

A ocupação territorial nas cidades brasileiras segue a tradição da "Casa Grande e Senzala". A Casa Grande dos ricos e mesmo da classe média precisa do apoio de uma mão-de-obra pouco qualificada, liberta, porém que realizar os mesmos trabalhos domésticos do tempo da escravidão.

As relações de trabalho mudaram, mas não o funcionamento da cadeia produtiva domiciliar.

Dessa forma, junto com a Casa Grande, dos condomínios de luxo ou das mansões, é preciso instalar as senzalas, que tomam hoje a forma de favelas, próximas.

Assim na Barra, desenvolveu-se a favela de Rio das Pedras, como no Morumbi a favela Paraisópolis.

As favelas não surgem, nem se desenvolvem como fenômeno independente. Quando próximas à riqueza são, indubitavelmente, a senzala necessária à Casa Grande.

Muitas vezes elas chegam antes, como o caso de Paraisópolis, no Morumbi, em São Paulo. Ou da Rocinha em São Conrado. Mas ela se expande com a chegada da riqueza.

Os demais desafios vamos comentar ao longo da semana.

 
 

Olimpiadas 2016

O Rio de Janeiro do desemprego

Com a escolha do Rio de Janeiro, como sede das Olimpiadas de 2016 já se fazem os cálculos dos milhões de empregos que poderão ser gerados, como um dos fatores mais importantes dessa escolha. Só que o legado efetivo poderá ser - como já ocorreu anteriormente - milhões de desempregados, uma vez terminadas as obras, ampliandos as comunidades (eufemismo usados para evitar a denominação favelas).

Essa herança perversa e maldita é sempre escondida, mas a decadência da Cidade Maravilhosa pode ser debitada - em muito - ao desemprego gerado pela transferência da Capital Federal para Brasília.

Segundo a lenda a favela começou com os desempregados da Campanha de Canudos. Terminada a guerra, com o extermínio de Antonio Conselheiro e seu séquito, o Exército não precisava mais do contingente adicional convocado demitindo-os. Como prêmio pela participação presenteou-os com áreas no morro. Que teria sido denominado Favela, por ser semlhante a um morro onde acamparam durante a Campanha (deixo no condicional por falta de tempo para confirmar as informações que fazem parte da memória).

A economia carioca durante muito tempo viveu do efeito renda dos servidores públicos, como hoje ocorre com Brasília. Ainda que menos dependente do que Brasília, por conta de uma incipiente industrialização, todo o conjunto do comércio e serviços se desenvolveu em torno dos gastos dos servidores federais, a fonte original da dinâmica econômica.

Quando, a partir dos anos sessenta, os funcionários federais foram sendo mudados para Brasília, transferiram parte das suas rendas para a nova Capital, desrentizando a antiga. O comércio e os serviços com a redução da massa salarial e, consequentemente, da demanda de consumo, foram demitindo os trabalhadores. Esses permaneceram na cidade, buscando nas favelas condições mais baratas de moradia e buscando a sobrevivência nos "bicos" com apropriação marginal da renda menor.

Uma parte ínfima desses trabalhadores "terceirizados" da renda dos funcionários federais, os acompanhou a Brasília.

No Rio de Janeiro sobrou uma renda menor a ser distribuida por mais pessoas, com o agravante da concentração de renda na mão de poucos.

Uma parte da renda retornou na forma de aposentadoria desses servidores públicos que, preferem viver a sua inatividade no Rio de Janeiro do que em Brasília. Mas é insuficiente para redinamizar a economia carioca.

Com a realização da Copa 2014 e das Olimpiadas 2016 o Rio de Janeiro tem excepcionais oportunidades para reverter o longo processo de decadência que emerge na forma de violência urbana.

Tive a felicidade de estudar e morar no Rio de Janeiro no que pode ser considerado o seu período áureo. De 1956 a 1959, durante o Governo Juscelino Kubistschek, que antecede a mudança da capital.

Não apoiei a candidatura do Rio para as Olimpiadas e fui cético, até a véspera. Mas ao ver e acompanhar a apresentação final, achei que muitos membros do COI ainda indecisos iriam acabar votando pelo Rio de Janeiro.

Agora que o Rio foi escolhido, procurarei aqui, com o melhor empenho, ajudar para que o Rio e o Brasil não percam a oportunidade. Nesse sentido, muitas vezes serão críticas, para que se evitem ilusões e equívocos.

Para bem aproveitar a oportunidade o Rio de Janeiro precisa retomar um crescimento econômico vigoroso.

Não deve se iludir com os investimentos que estão sendo prometidos. Alguns serão legados benditos, mas outros serão malditos.

Entre os legados indesejáveis estarão um conjunto de "elefantes brancos" e um enorme contingente de desempregados das obras.

Temos alertado reiteradamente aqui como em todos os fóruns que participo que as grandes obras geram empregos temporários e desempregados permanentes. O grande número de empregos que é apregoado como fator positivo, na prática acaba sendo um legado negativo. A cidade informal é o resultado desse desemprego. O déficit habitacional é o efeito perverso dos empregos gerados pelas obras.

A principal vantagem das oportunidades de 2014 e 2016, para o Rio de Janeiro, está na conjugação com o pré-sal.

Mais importante que os bilhões de reais previstos para sediar as Olimpiadas, serão os bilhões para um crescimento econômico sustentado da economia carioca.

Ai entra a controvertida figura de Eike Batista que poderá capitanear esse novo surto de crescimento econômico carioca. Com reflexos urbanos e sociais. Por enquanto fica apenas a referência.

A idéia de cobrir o déficit de quartos com os transatlânticos faz parte do FEBEAPÁ.

Se há uma previsão de déficit de 6 mil leitos, o planejamento de médio e longo prazos tem que ser feito para construir e gerar uma ocupação permanente para esses leitos adicionais.

A ocupação permanente desses leitos gera trabalho permanente. É diferente da geração de empregos temporários com obras ou grandes eventos pontuais.

O grande, o maior legado da Copa 2014 e das Olimpiadas de 2016 deverá ser um substancial incremento do fluxo turístico estrangeiro para o Brasil. O Brasil deverá se tornar um dos principais destinos turísticos mundiais.

O Rio de Janeiro precisa se transformar  no "objeto de desejo" de todo o turista. Não apenas dos bandidos do cinema e da vida real.

Com a Copa 2014 insistimos na necessidade de se planejar o Brasil 2015. Agora precisamos dar um salto maior, planejando o Brasil e o Rio de Janeiro, de 2017, o Brasil e o Rio de Janeiro 2022.

 
 

Olimpiadas de 2016

Uma estratégia bem feita

Enquanto blogo acompanho a apresentação do Brasil como candidata à sede dos Jogos Olímpicos de 2016.

Mandou uma boa equipe para reforçar a candidatura, incluindo o Presidente Lula, o Presidente do Banco Central, para dizer que nós todos, contribuintes, irão pagar as contas. E que estamos dispostas a pagar, ainda que não tenhamos sido consultados.

Mas se o Brasil for selecionado, será devido - principalmente - ao vídeo final dirigido por Fernando Meireles.

Ao contrário de todas as apresentações que estão voltadas para o Rio de Janeiro - procurando mostrar as suas vitrines - o vídeo de Meireles (o Fernando, e não o Henrique) está voltado aos demais povos. Aos participantes. Ao focá-lo, atinge diretamente a cada um eleitores do COI que poderão se encontrar em um outro personagem do filme.

Parte da experiência comercial de Meireles, que procura fazer com que o espectador se encontre na apresentação. Identifique-se com as personagens ou com as cenas.

E o tratamento dado às personagens é a sua recepção calorosa de sua população.

 

 
 

Olimpiadas 2016

Insuficiência do planejamento

Seja com a realização da Copa 2014, assim como para a eventualidade dos Jogos Olímpicos, no Rio de Janeiro, faltam planejamentos mais abrangentes que levem em conta o desenvolvimento urbano e regional.

Não basta uma lista de obras, com os seus respectivos orçamentos.

Ou se basear em ilusões, que se desfazem ao longo do tempo.

No caso da Copa, Recife é a única cidade que insere a sua proposta no contexto de um planejamento urbano e regional maior. Por isso mesmo, a mais difícil de implantação.

Nas demais cidades a visão urbana tem se limitado ao entorno próximo dos estádios, sem a devida consideração do papel dessas áreas na rede urbana.

Os grandes eventos internacionais num território limitado e durante um curto prazo tem um grande potencial de transformação e deixar importantes legados muito além de instalações físicas.

Até agora estamos deixando escapar essa oportunidade.

O plano do Rio para as Olimpiadas de 2016 envolve intervenções pontuais e mais uma peça de marketing do que de planejamento urbano.

O plano de São Paulo, para o Morumbi se restringe ao estádio, seu entorno imediato e as suas ligações, sem uma consideração sobre um entorno mais amplo, que tem sido uma das áreas de maior transformação dentro da cidade. E que será acelarada com a implantação da rede de transportes de massa.

 
 

Olimpiadas 2016

Vitrines e vidraças

O posicionamento das principais autoridades do Brasil, dos EUA e da Espanha îndicam a importância que elas estão dando à disputa para sediar as Olimpíadas de 2016. O Japão, com Toquio, mantém uma posição mais técnica, preferindo não entrar na disputa política.

O Governo japonês, recém eleito, não está preocupado com o seu público interno de não estar tão empenhado na disputa. Se ganhar, irá se movimentar. Se perder, tudo bem.

Como se espera uma decisão política de caráter internacional, Toquio seria a última opção. A menos que pelo empate político entre as demais, o colegiado do COI acabe por optar pela solução técnica. Será uma surpresa.

O problema de Chicago é mais de política interna do que externa. Os EUA tem pouco a ganhar - comparativamente a Madrid e o Rio - sediando os Jogos Olímpicos. Poderá ter mais problemas do que benefícios. Dada a persistência do terrorismo, terá custos muito maiores que os demais, para garantir a segurança.

Tem, por isso mesmo, forte oposição interna.

Barack Obama não era o Presidente dos EUA, quando Chicago se candidatou. Se fosse, talvez não incentivasse. Mas Chicago chegou às finais e Obama não pode se omitir. Por razões internas.

Não pretendia ir a Copenhagen, enviando apenas a sua mulher Michelle, que pelo seu charme poderia conquistar muitos eleitores, entre os 106 eleitores do COI. Mas em função da reação interna, irá.

Se ganhar terá que cumprir os compromissos, mesmo que possa não ser a sua vontade principal. Mas se perder, dirá que lutou tenazmente até o último momento, para tentar vencer. Não quer ser acusado de omisso.

Nesse sentido, para ele, a melhor opção é a vitória do Rio de Janeiro. Venderá a versão de que a opção foi por um país emergente, que nunca havia sediado uma edição dos Jogos Olímpicos. Madri não seria a opção, pois a Espanha sediou os jogos em Barcelona, em 1992.

Do ponto de vista da política interna, a pior alternativa para Obama será Chicago perder para Madri.

A Espanha e o Brasil, disputam para valer. Uma derrota de Zapatero poderá ter repercussões políticas. A menos que perca para o Rio de Janeiro, Brasil. A escolha do Brasil terá sempre uma desculpa de atender a um país emergente.

Lula está muito empenhado pela escolha do Brasil, até porque sonha em ser o "Presidente das Olimpíadas do Rio de Janeiro", com o retorno ao Governo em 2014. Mas se perder não será um desastre interno. Apenas uma decepção carioca. Pouco vai afetar a popularidade do Lula.

O fato do continente sulamericano nunca ter sediado os Jogos Olímpicos e o Brasil ser um país emergente, poderá ser o principal fator que leve a maioria dos membros do COI a optar pelo Rio de Janeiro.

Mas, exatamente, o fato de ser um pais emergente, eufemismo para substiuir as antigas denominações de subdesenvolvido e depois em desenvolvimento, traz uma carga de problemas que pode influir numa decisão contrária ao Rio.

Todos querem mostrar as suas vitrines. E o Rio tem muitas. Mas procuram esconder as vidraças. Mas que, no Rio de Janeiro, são incobertas, inocultáveis. Qualquer vista aérea do Rio, mesmo pretendendo mostrar só o Cristo Redendor e o Pão de Açucar, capta as favelas.

Essa são parte estrutural da linda paisagem carioca.

É o indicador da violência e da insegurança. Hoje a situação está mais sob controle, pela ação dos Governos Estadual e Municipal, mas insuficiente para mudar a imagem de que nessas comunidades o Estado é omisso e inteiramente dominado pelas quadrilhas.

O Rio de Janeiro, como os demais fazem uma grande campanha publicitária mas que pouco atinge os eleitores. Esses são 106 cartolas do esporte, com interesses específicos, dentro de uma política particular.

O que alcança os seus corações e mentes, e - eventualmente - os seus bolsos é que definirá a escolha, escamoteado por um imenso cenário e pompa.

 

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