Ligação Santos Guarujá
Ligação Santos-Guarujá ou entre as margens do porto?
Um debate realizado ontem em Santos sobre a ligação Santos-Guarujá trouxe diversas informações relevantes para a análise dos problemas e tomada de decisão sobre a melhor alternativa.
A questão primeira é sempre saber qual é a pergunta?
Pressupõe-se que é necessário fazer uma ligação seca entre as duas ilhas do litoral paulista: a de São Vicente onde se situa a cidade de Santos e a de Santo Amaro, onde se situa a cidade do Guarujá. Que correspondem também às duas margens do Porto de Santos. A de Santos, caracterizada como direita e a do Guarujá como a esquerda, que corresponde a uma visão da terra para o mar.
Antes da discussão se deve ser uma ponte ou um túnel, a pergunta é para que?
O Governo do Estado, através do seu Departamento de Estradas de Rodagem - DER, quer substituir a atual travessia de pessoas por balsa, na Ponta da Praia de Santos ao Guarujá e vice-versa.
Segundo os seus dados, trafegariam por dia, cerca de 25.000 veículos, sendo a travessia com maior volume de carros, por balsa. O que para, alguns, não seria motivo de júbilo (sempre quando o maior do mundo) mas de vergonha, por não ter dado uma solução a esse problema.
A travessia que é feita em poucos minutos pode demorar horas, nos momentos de pico, em função dos congestionamentos.
Uma ponte entre Santos e Guarujá na entrada do canal do porto, precisaria ter um vão mínimo de 80 m para permitir o tráfego dos modernos navios dotados de porteineres, ou de cruzeiro. Mesmo com essa altura inviabilizaria a passagem de plataformas de petróleo, para manutenção dentro do porto. Segundo o presidente da CODESP essa ponte inviabilizaria os planos de desenvolvimento do Porto de Santos.
Com tal altura, considerando a necessidade de rampas adequadas para a subida de caminhões e mesmo de ciclistas, uma distância de 600 ms envolveria uma obra de arte de quase 4.000 ms com o agravante de que os acessos estariam sobre as avenidas, criando um elevado do tipo "Minhocão" (apelido do elevado Costa e Silva, na cidade de São Paulo). Com a consequente degradação do entorno de seus baixos.
Aquilo que quer ser mostrado como uma vitrine, esconderia a vidraça.
Ademais os usuários teriam que percorrer grandes distâncias para ter acesso à ponte. A menos de uma solução "caracol". De efeitos visuais discutíveis.
A alternativa túnel escavado é descartada, inclusive pelo Presidente da Comissão Brasileira de Túneis. Por requerer uma grande profundidade, gerando o mesmo problema das rampas.
A solução de um tunel submerso, construido com peças prémoldadas, colocadas no fundo do canal, após uma dragagem, seria tecnicamente viável, e com acréscimos menores de extensão, em função da aclividades ou declividades.
O questionamento está nos custos. Segundo estimativas apresentadas pelo Governo do Estado, sem a necessária comprovação, o seu custo seria cinco vezes o da ponte.
Em função disso a proposta do Presidente do SINAENCO, apresentada na referida reunião, é da contratação concomitante do projeto básico de uma ponte submersa. O que permitiria comprar as soluções e os custos, determinados de forma mais precisa.
Mas para a CODESP a pergunta não é essa.
O seu problema é ter uma ligação seca (que pode até ser ferroviária) entre as duas margens do Porto, para a transferência das cargas de uma margem a outra.
Para resolver esse problema propõe uma ponte mais para dentro do estuário. Para ter uma altura menor precisaria ser além da área de manobra dos navios.
O que precisaria ser avaliado é se com essa ponte que atende, principalmente, as necessidades de cargas do porto, as pessoas que hoje usam a balsa poderiam se transferir para ela. Com isso tornaria desnecessária a ponte na Ponta da Praia.
Ninguém ter estudos de origem-destino para uma avaliação mais adequada das demandas.
O que se tem são contagens de tráfego que são ilusórias. Por que não perguntam as razões da viagem.
Segundo o Presidente da CODESP trafegam pelo porto 20.000 caminhões por dia. Mas apenas 4.000 seriam de viagens de longo curso. Os demais 16.000 fazem a movimentação interna.
O que não se pergunta é "por que diabos" esses caminhões circulam pelo porto, inclusive de uma margem a outra.
Uma das respostas é que a cargas desembarcada num navio, num único berço do Porto é liberado em diversos outros pontos, em função da localização do operador portuário ou do dono da carga. O mesmo processo inverso ocorre para embarque.
O caminhão de longa distância descarrega o conteiner num terminal, no retroporto, e depois esse é transportado para o local do embarque, que pode ser em outra margem. É a chamada "pernada".
Se essa pernada for eliminada por mecanismos mais eficientes de gestão, as demandas identificadas pelas contagens de tráfego irão diminuir substancialmente.
Um eventual terminal alfandegado antes da bifurcação para as margens, poderia eliminar o problema.
O outro movimento é conhecido como "vira". São os caminhões que fazem a transferência de carga - em geral de insumos químicos a granel - para o polo industrial de Cubatão. Com o desenvolvimento de novos terminais esse movimento poderá ser eliminado ou reduzido.
Ou seja, antes de responder à pergunta como resolver melhor o tráfego de caminhões de uma margem a outra, seria conveniente responder à pergunta: pode-se diminuir esse tráfego de uma margem a outra, de tal forma que o residual possa ser atendido pelo contorno?
Antes da discussão sobre as alternativas de solução é preciso saber melhor qual é o problema real.