Bióleo
Adiantado ou atrasado?
O Governo Federal decidiu implantar o B5, ou seja, a mistura obrigatória de 5% de biodiesel no diesel mineral, no início de 2010. Alardeando uma antecipação de três anos, porque nos planos iniciais esse percentual só deveria ocorrer em 2013.
Uma antecipação como essa deveria - realmente - ser amplamente comemorada, porém na prática está atrasada. Em 2010 o Brasil deveria estar praticando B7 ou até B10 e chegar em 2014 a B20, pelo menos nas grandes áreas metropolitanas.
O Brasil que quer se mostrar ao mundo em 2014, quando da realização da Copa do Mundo, deverá ser um pais "bioenergético".
O Programa Nacional de Produção de Biodiesel busca associar uma solução ambiental (substituição - ainda que parcial - do diesel mineral, cerca de 70% mais poluidor que o biodiesel) com o social, pela inclusão da agricultura familiar. Vem falhando nesse segundo aspecto, apesar dos esforços do Governo, agora diretamente através da Petrobras Biocombustíveis.
Essa inclusão social - via agricultura familiar - somente irá ocorrer à longo prazo, com base nas novas oleaginosas. Mesmo assim, com riscos de ser "atropelada" pelo agronegócio, pela produção extensiva do pinhão-manso, da palma e de outras matérias-primas.
Para chegar ao B20 metropolitano, até 2014, o objetivo de inclusão social poderá ocorrer com a contribuição de outro meio: a logística reversa social urbana.
Esse mecanismo compreende a captação do óleo de fritura usado, gerado nos domicílios urbanos.
Os grande números estimados (cerca de 1,5 bilhões de litros de óleo de cozinha usados, atualmente) poderiam abastecer 4% da demanda de diesel, ou seja, o B4. Não eliminaria a necessidade de outros insumos agrícolas, oriundos da soja ou de outras oleaginosas.
As regiões metropolitanas são uma das maiores consumidoras de óleo diesel, por conta da frota de ônibus urbanos e das origens e destinos das cargas. São também as maiores geradoras de óleo de cozinha usados.
A redução da circulação do insumo para a produção do biodiesel terá ainda o condão de minimizar a emissão dos gases de efeito estufa.
A utilização do óleo de cozinha usado como insumo para biodiesel ainda tem o inconveniente de obrigar um turismo desse material que reunido nas áreas urbanas tem que ser transportado a longas distâncias até uma usina de biodiesel, para depois retornar às distribuidoras, que ficam próximas dos grandes centros de consumo.
Pelo regime atual, não interessa às usinas de biodiesel se instalarem próximas às distribuidoras, porque os preços dos leilões é FOB e o seu principal insumo é o óleo de soja, produzido no interior.
Se o insumo for o óleo de cozinha usado, poderão ser instaladas usinas metropolitanas, com escalas menores, porém com grandes ganhos nos custos logísticos.
As dificuldades para a implantação desse modelo não estão na tecnologia ou nos investimentos, mas na captação do óleo gerado pelos domicilios.
A geração do óleo nos bares e restaurantes é viável, como atividade econômica, e está sendo feita por empresas que vem oferecendo em troca, material de limpeza.
Já a captação domiciliar é dispersa e de baixa produtividade. Não é viável empresarialmente, mas sim para entidades sociais e catadores.
Para os catadores pode-se organizar um sistema que gere mais renda com um trabalho mais digno.
O preço do diesel é administrado pelo Governo o que lhe dá uma certa estabilidade. Isso deverá prevalecer ainda por muitos anos. Para os catadores-coletores isso significa também uma certa estabilidade na sua renda. Nâo estarão tão sujeitos a variações de preços, como tem ocorrido com outros resíduos.
Precisam captar pelo menos 1 tonelada de óleo de cozinha usado por mês para poderem contar com uma renda equivalente a um salário mínimo. Em termos residenciais, precisa ter uma clientela de mil residências, uma população em torno de 4 mil pessoas.
Dividido por vinte dias úteis, significa uma captação em 50 casas por dia. Nos bairros populares corresponderia a uma quadra. Precisaria trabalhar pelo menos vinte quadras por mês.
Na prática não significa trabalhar só uma quadra por dia. Ele tem que circular por 4 ou mais quadras para captar a sua quota diária. Mas bem organizada a sua logística ele pode ter a produtividade necessária.
A partir dai a sua possibilidade de aumentar a renda está na obtenção, por doação, do óleo gerado pelos bares e restaurantes.
Esse é o mecanismo básico da logística reversa social.
Para os bares e restaurantes o óleo usado tem um pequeno valor econômico: é o de material de limpeza que recebe, de empresas coletoras.
Pode substituir esse pequeno valor econômico por um valor social maior, doando-o para os catadores-coletores ou para entidades sócio-assistenciais.
Esse será um incentivo fundamental para estimular a ampliação da captação e coleta domiciliar.
Sem isso, o B20 urbano continuará sendo um sonho.