Visões parciais
Assistindo a um debate sobre a China vejo os mesmos erros que fizeram com que os economistas não percebessem a crise que assolou as finanças mundiais.
A China é vista como a maior credora líquida do mundo. O que é um equívoco. Há uma contrapartida de obrigações que não são consideradas na mesma conta e gera essa falsa impressão.
Ao longo de muitos anos a China recebeu maciçamente investimentos estrangeiros que geraram a grande capacidade produtiva industrial, com a qual exporta para o mundo e aumenta o seu PIB, em níveis de dois dígitos.
Todos esses investimentos estrangeiros, na sua maior parte em dólares norte-americanos, foram convertidos em yuans, para a sua transformação em ativos fixos, e as moedas estrangeiras aplicadas em títulos internacionais, principalmente, do Tesouro Norte-Americano.
Se esse investimento estrangeiro quiser sair, a China tem que usar as suas reservas.
Nem esses investimentos vão sair tudo de uma vez, nem a China vai deixar de manter os seus estoques de títulos do Tesouro Norte-americano. As discussões são marginais, sem entrar no âmago dessa simbiose, porque isso significaria guerra econômica total e uma crise sem precedentes. A dependência entre os EUA e a China é mútua.
A China, no entanto, tem maiores condições de reduzir a dependência do que os EUA.
Para depender menos da China, os EUA precisariam reverter o processo de aumento desmesurado do consumo interno com investimentos na China para produção e atendimento a esse consumo.
Com a globalização, a relação consumo-investimento não respeita os limites nacionais.
Para a reversão, os EUA precisariam reduzir o consumo de produtos chineses. Investir mais em seu próprio território para atender ao seu consumo, o que é pouco viável, em função dos seus custos de produção.
Para reduzir a dependência da China, os EUA terão que buscar outros mercados para produzir para eles. Investiram na alternativa mexicana, mas não deram sequência. E os mexicanos foram superados pelos chineses. Terá que voltar a desenvolver as relações com o México. Outra alternativa seriam os demais paises latino-americanos, principalmente o Brasil. Tentaram isso com a ALCA, mas não conseguiram, pelo medo dos demais paises com a dominação norte-americana.
É importante, entender no processo histórico, que a China não teve medo de uma eventual dominação norteamericana da sua economia. Obrigaram as multinacionais a se associar com empresas chinesas, em geral, estatais. Em função da perspectiva do mercado interno de bilhão de chineses, da mão-de-obra mais barata, escalas globalizadas, aceitaram. Agora, as multinacionais são "prisioneiras" dos chineses e não tem como sair de lá em massa.
O dilema da Google é apenas um exemplo. Abandonar um mercado do tamanho da China, deixando-o para os concorrentes?
A América do Sul teve medo e não aceitou a integração com os EUA. A China não teve e gerou essa simbiose crítica que não pode ser rompida.
A China caminha para ser a maior produtora industrial do mundo, atropelando todos os demais produtores industriais.
A pergunta que deve ser discutida e respondida é que indústria restará aos demais paises, com a avalanche chinesa?
Dentro desse quadro, que indústria restará ao Brasil?
Os chineses tem custos mais baixos de produção em função da escala dos seus empreendimentos, dos custos mais baixos da sua mão-de-obra e de baixa tributação. Essas são as condições estruturais. O câmbio é uma condição conjuntural. Assim como são as restrições ambientais.
A China tem condições de implantar plantas produtivas de mega escala que nenhum outro pais tem. Essa é a sua principal vantagem competitiva.
A mão-de-obra tenderá a aumentar o seu valor, com perda da sua competitividade. Mas isso não se dará no curto, ou mesmo no médio prazo. Porque a China ainda tem um enorme "exercito de reserva": disposto a trabalhar com baixos salários.
Uma das questões críticas estará no aumento dos "encargos trabalhistas". Ou seja, o sistema de proteção social.
A outra grande incógnita está na amplitude da capacidade chinesa de inovação tecnológica.
Nos anos oitenta o Japão emergiu como uma grande economia inovadora, até que perceber que era uma cópia da norte-americana e, em seguida, os avanços japoneses sobre os modelos norteamericanos, foram absorvidos e incorprados por esses, eliminando as diferenças competitivas.
A China é uma grande fabricante de produtos inovadores gerados pelos norteamericanos, como os de Steve Jobs. Tudo o que ele inventa, é manufaturado pelos chineses. A China ainda não conseguiu ser uma inovadora autônoma.
A China vai se tornar - se é que já não se tornou - a maior fabricante de carros do mundo. Mas é apenas em quantidade, sendo que a maior parte é das multinacionais. Não reiventou como a Toyota, que criou o toyotismo.
A sua grande novidade é o carro elétrico, mas ainda sem tecnologia chinesa.
Todos os demais são cópias (bem ou mal feitas) dos carros ocidentais. E ainda não tem o flex.
Agora as empresas genuinamente chinesas estão chegando ao Brasil. Que tamanho de mercado conseguirão alcançar. Os que já chegaram não estão com preços muito menores.
Já descobriram que o que eleva o preço dos carros é o imposto. Não adianta comparar sem considerar a carga tributária. E carro não dá para ser vendido pelo camelô da esquina, fugindo dos impostos.
Ademais carro no Brasil é imagem. Se alguma empresa tentar sonegar os impostos dos carros e for pega, terá o seu "filme queimado" e não conseguirá vender.
O Brasil tem duas desvantagens competitivas na sua indústria, para concorrer com os chineses: os encargos trabalhistas e a carga tributária. E, por enquanto, as restrições ambientais.
A discussão sobre o futuro do Brasil, sobre o seu projeto nacional, passa - necessariamente - por essas questões.