Estratégias eleitorais

Quem são os formadores de opinião?

Lula sabe que a imprensa escrita já não é formadora de opinião, como foi no passado.

Não tem medo das contestações e do alinhamento dos principais meios com a candidatura da oposição.

Sabe que eles só alcançam a opinião publicada, que é minoria dentro do eleitorado.

Mas causam muito incômodo no dia a dia. Pouco para Lula, que não lê jornais ou revistas, tampouco assiste aos noticiários, a menos de trechos selecionados pelos seus áulicos.

Esses querem cercear a imprensa, certos de que ela não reflete a opinião pública.

Se a mídia não é mais a formadora da opinião da maioria dos brasileiros, porque tanta preocupação com ela.

Para a mídia, FHC virou o jogo. De encantuado, saiu para o contra-ataque. Assumiu que é o alvo da campanha do PT e de Lula e que não cabe ao candidato Serra, nem mesmo ao PSDB sair na sua defesa. Porque é isso que quer o PT.

Deixando a vaidade de lado (parcialmente) resolveu aceitar a briga. Trazendo o adversário para o seu campo. Deixando flancos abertos.

Vai desmontar a estratégia plebiscitária, desejada por Lula.

Porque se o povo não é influenciado pela midia, é um povo sem memória. Interessa o presente e o futuro. Comparar passados é uma atividade intelectual ao qual o povão não está afeito.

Lula, Dilma e PT querem enfrentar o adversário que não está em campo.


 
 

Estratégias eleitorais

 

Quem é o mais esperto?

Lula quer provocar uma eleição plebiscitária em outubro de 2010, comparando o seu governo com o de FHC.

Tem feito sucessivas provocações que não eram aceitas pelo provável candidado Serra, determinando a conduta do PSDB.

O PSDB parece ter mudado de posição e resolveu contra-atacar. Primeiro foi com Paulo Renato e agora com FHC, com uma tônica: Lula, Dilma e o PT mentem. Falseiam os dados.

Fernando Henrique Cardoso que, além de ser um ex-presidente, é um sociólogo sabe muito bem que a versão vale mais que o fato, ou que a verdade. E que, Lula - dentro da tática goebeliana - quer o maior tempo na televisão para veicular a sua versão, para seja aceita como a verdade.

FHC será um perdedor na disputa de versões. Ele sabe disso. Então por que se aventura na provocação?

Pode haver uma explicação estratégica: ele atrai Lula, PT e Dilma para o confronto desejado por Lula. A disputa pelo retrovisor: quem fez o melhor governo?

Enquanto o Lula, Dilma e PT estão enfronhados nessa disputa, gastando tempo e esforço, Serra emergirá, quando candidato, com propostas para o futuro. Sem assumir o "fernandismo".

Quando Dilma perceber que foi para o caminho errado, poderá ser tarde demais para refazê-lo e disputar as propostas futuras.

Em política nada do que se diz é o que se faz. Tudo tem segundas, terceiras e enésimas intenções. O que espanta é como a mídia vai atrás das afirmações, transmitindo-as à opinião publicada, como se fossem palavras finais.

FHC está conseguindo êxito na sua investida, fazendo com que os petistas reajam, incluindo a provável candidata Dilma Rousseff, enquanto Serra passa ao largo.

FHC está fazendo o pepel de "coelho" das corridas de fundo, sai na frente obrigando os concorrentes a forçar o ritmo no começo, cansando-se antes, enquanto o provável vencedor mantém o ritmo, sem se abalar com a correria inicial e no meio da corrida, passa para a ponta para não mais ser superado.

Tudo isso parece muito óbvio, porém o PT já se mobilizou e pode chegar desgastado em outubro de 2010, brigando com fantasmas que grande parte da eleitorado já não sabe mais quem foi.

 

 
 

Ferrovias

 

Por que não caminha? Por que se insiste?

As ferrovias brasileiras estão em processo de lenta recuperação. Anunciam-se grandes investimentos. Mas poucos se efetivarão. Porque se baseiam em premissas erradas.

As ferrovias brasileiras são uma má solução logística e como tal não tem condições de concorrer com o transporte rodoviário, a não ser em casos excepcionais.

Enquanto não se raciocinar com a ferrovia como uma solução logística, alardeando uma suposta vantagem de custos de fretes menores, ela não evoluirá satisfatoriamente. Na perspectiva logística é preciso considerar o custo total de uma movimentação, e não apenas de um trecho ou parte. E nesse custo, envolver o do tempo. O que para o dono da carga pode representar pagamento de juros adicionais, lucros cessantes, etc.

Por outro lado, as ferrovias foram vítimas do seu sucesso. Ao levar o progresso a regiões pouco habitadas, desenvolveram cidades segmentadas, divididas de um lado e de outro da ferrovia. O que era fator de progresso tornaram-se cicatrizes urbanas, fechadas posteriormente pelas invasões das suas áreas lindeiras.

Os ferroviários tem as suas lógicas e suas razões, mas acabam falando para si mesmos ou para círculos restritos.

A implantação ferroviária não é viável economicamente a curto e médio prazo. É uma solução de longo prazo, que só pode ser realizada pelo Poder Público. Dadas essas características, uma solução de Estado, nunca de Governo.

É uma solução de Estado que precisa convencer as forças da sociedade sobre a aposta.  Sarney, quando Presidente, não conseguiu persuadir a FIESP e a Norte-Sul que poderia estar em plena operação, neste ano de 2010 ainda só funciona parcialmente. Por um erro estratégico, primário, porém vital. Se a tivesse batizado de ferrovia sul-norte, teria conseguido viabilizar.

O inconsciente coletivo é sempre um elemento fundamental no posiconamento das pessoas e nas suas decisões.

A falta de continuidade nos investimentos em infraestrutura fez com que se perdesse o sentido do planejamento de tal forma que a decisão sobre o que e onde investir se baseia preponderantemente no atendimento às demandas reprimidas e na avaliação de viabilidade econômica, considerando essas demandas não atendidas e suas projeções.

Dentro dessas concepções, a expansão ferroviária sempre acabará perdendo na ordem das prioridades, para outros investimentos públicos. E não há mais "aventureiros privados" dispostos a investir em grande sonhos de integração territorial. Ficaram os sonhos, mas não o dinheiro.

O planejamento da revitalização ferroviária terá que ser precedida por um planejamento estratégico de utilização territorial, de caráter proativo, definindo-se - por hegemonia social - o que se quer.

Entenda-se que hegemonia social não é a preponderância um pensamento único formulado por um "gênio" mas a aceitação social do que é proposto. Projeto Nacional não é o de um governo ou de um líder, mas o projeto aceito pela maioria.

Não há mais condições de viabilização econômica da ferrovia, baseada em cargas industrializadas, dentro de conteineres. Essa poderá ocorrer, mas como carga adicional, não a principal. A principal terá que ser de cargas uniformes, de grandes volumes e de movimentação a grandes distâncias. Ou seja, de commodities.

Portanto, ou se aceita que o Brasil será um grande produtor de commodities ou só haverá um pequeno espaço para a expansão ferroviária.

O resto será conversa de ferroviário para ferroviário, sem conseguir convencer os demais segmentos da sociedade.

 

Índice da Semana

Semana de 1 a 5 de fevereiro de 2010

5 de fevereiro de 2010

4 de fevereiro de 2010

3 de fevereiro de 2010

2 de fevereiro de 2010

1 de fevereiro de 2010

 
 

Resíduos Sólidos

 

Tralhas, Bagulhos e Entulhos

Em qualquer reunião quando o tema é resíduos sólidos, o tema recorrente é o entulho. Deixado em frente às casas ou despejado em lugares impróprios.

O que é chamado de entulho confunde bagulhos com os resíduos da construção civil.

Entulho seria o resíduo da construção civil. Para o qual há regulação federal e é operacionalizado pelas Prefeituras Municipais. Os geradores são obrigados a guardar o entulho dentro dos canteiros, só podem colocar na via pública em caçambas que tem prazos para a retirada. O entulho recolhido deve ser colocado em bota-foras adequados e, preferencialmente, reciclados para reuso na própria construção. Nem sempre isso é cumprido, apesar das multas.

No caso das grandes construtoras e grandes empreendimentos isso tem maior nível de cumprimento, com a existência de canteiros internos ao terreno da obra.

Os problemas estão nas pequenas construções que não comportam um canteiro interno e, principalmente, nas reformas. Esses nem sempre tem volumes suficientes para encher uma caçamba ou enquanto esperam a colocação da caçamba deixam o entulho na calçada. Uma prática comum é o recolhimento do entulho e o seu despejo em terreno próximo.

O problema maior é das reformas e ampliações, principalmente, as realizadas por autoconstrução pelas família de baixa renda. Os tais "puxadilhos". Cujo desperdício de material tende a ser alto, o que significa geração maior de entulhos.

As tecnologias desenvolvidas para a guarda e disposição dos entulhos parecem não serem compatíveis com a autoconstrução. Dai a solução simplista do autoconstrutor de colocar o seu entulho na rua.

A solução pode ser uma caçamba ou um ecoponto. Mas o problema está em como levar o entulho atá a caçamba ou ecoponto? A solução primária é o carrinho de roda. Que os setores mais avançados já esqueceram, mas no interior e nas camadas de renda mais baixa é a solução logística adequada. O problema está na topografia. Por essa razão as caçambas ou os ecopontos não devem ficar sempre nas partes mais baixas,

Já a logística reversa dos bagulhos é mais complexa. Os entulhos podem ser quebrados e para um carregamento mais compactado.

Já os bagulhos podem ser volumosos com com formatos diferentes, como uma cama, um armário, um eletro doméstico, etc.

A logística usual é do "cata-bagulho" com uma periodicidade relativamente longa: uma vez a cada três meses ou mais. Não é uma operação rotineira.

Nas residências de classe média, pode haver um espaço para os bagulhos, que decorrem da troca do mobiliário ou equipamento doméstico. Nas residências de baixa rend, não há esse espaço e o jeito é colocar o bagulho na rua, esperando pelo "cata-bagulho".


 

 
 

Imperador Lula I

Rebeldia na corte

O imperador Lula, embalado na enorme aceitação popular, no reconhecimento internacional e na sua onisciência, quer impor a condução da campanha eleitoral de 2010 e a sua candidata.

Ele quer, porque quer, que a eleição de outubro de 2010 seja plebiscitária. Fazendo o povo comparar a gestão do seu antecessor FHC com a sua. Para isso, Dilma seria a cara dos seus mandatos e garantia de continuidade. E Serra seria a "cara" de FHC.

O problema, como em todas as estratégias, é "combinar com os russos", principalmente com os inimigos.

Apesar da imensa capacidade de Lula de sentir e perceber o povo (o que leva aos índices de aceitação popular) nesse caso estaria colocando as idiossincrasias pessoais acima da realidade, trazendo junto Dilma que - assim como grande parte dos petistas - tem as mesmas. Um ódio profundo a FHC.

O que poderia ser explicado pelo fato de FHC ter "caroneado" Lula em 1994. Lula perdeu a eleição para Collor em 1990 e depois da derrubada do então presidente, comandada por uma então coligação PT-PSDB, mais PFL e outros, seria a vez de Lula. Praticamente sem adversário.

Mas ai foi "atropleado" por FHC, que se aliou a um dos mais tradicionais adversários do PT: Antonio Carlos Magalhães. Foi visto como uma grande traição, cujo ressentimento prevalece ainda hoje, dentro das hostes mais antigas do PT.

Pode ser uma explicação simplista, porém a psicologia explica: ser traido(a) casando com o inimigo é uma mágoa que não se apaga.

Agora, querer que os outros compartilhem da mesma mágoa, tomando o seu partido, pode ser um grande erro.

Quando um casal se separa, de forma não amigável, um dos dilemas é "quem fica com os amigos comuns?".

Lula quer que o povo fique com ele, unindo-se ao ressentimento de uma "traição" e separação traumática de 16 anos atrás.

Será que isso é importante para o povo?

É dentro de uma visão de que isso não prevalecerá nas eleições de 2010 que Ciro Gomes, se rebela e se mantém candidato. Ele acha, sabe, tem certeza de que é um candidato melhor que Dilma, para enfrentar Serra.

Para Lula e a velha guarda do PT, a eleição deverá ser plebiscitária. Serra procura fugir dessa perspectiva e Ciro não acredita. (em tempo, existe una jovem guarda do PT?)

O risco para o PT é a eleição de Serra, no primeiro turno. Para isso joga com Ciro, para evitá-lo e lever a eleição plebiscitária para o segundo. Ciro não aceita o jogo para ser o "tercius". Quer ser o primeiro. Disputar com Serra o segundo turno.

O Imperador terá dificuldades em convencer o reblede.




 
 

Planejamento urbano

São Paulo parou!

Há mais de cinquenta anos o grande lema da cidade de São Paulo era "São Paulo não pode parar".

Era uma cidade fervilhando que recebia a cada dia, levas de imigrantes para trabalhar na construção civil e outras atividades de uma região em permanente construção.

Quando o ex-Prefeito prof. José Carlos de Figueiredo Ferraz ousou dizer que São Paulo precisava parar, foi execrado e acabou demitido. Numa ocasião em que Prefeito era designado pelo Governador.

Hoje em dia São Paulo para. Para no trânsito, com os congestionamentos constantes. Qualquer chuva para a cidade.

Mas não é dessa parada que estamos nos referindo, mas à redução gradativa da taxa de crescimento da população da cidade. A perspectiva é que 2014, no ano da Copa, ocorra reversão e a população do Municipio comece a descrescer.

Do Municipio, não da cidade como um todo, pois essa se estende pela região metropolitana, que ainda continuará crescendo, de forma periférica.

Se considerarmos, no entanto, o centro expandido da cidade, incluindo algumas extensões pelas áreas servidas pelo Metrô, essa já parou, já tem decréscimo de população, ainda que isso ainda não seja tão perceptível no dia a dia.

Essa percepção será ficará evidenciada pela divulgação dos resultados do censo de 2010. O que  deverá ocorrer entre 2011 e 2012. O fenômeno já é real, no presente, mas a sua percepção será vista com atraso.

Dentro dessa perspectiva os planejamentos urbanos para a cidade de São Paulo deverão ter por base a diminuição da população residente, o que inverte totalmente as lógicas anteriores e tradicionais que sempre trabalharam com a perspectiva de crescimento.

A visão saudosista ainda predominante entre os urbanistas é de tentar reverter a tendência, com estratégias e ações para promover a reocupação do centro. Principalmente das áreas degradadas.

Agora surgiu um novo termo, para superar os desgastados "revitalização", "requalificação". Fala-se em regeneração das cidades, o que supõe que houve uma degeneração.

As estatísticas, no entanto, misturam três fenômenos distintos que resultam, na prática, na redução da densidade demográfica e perda absoluta de população residente.

A primeira é a saída de pessoas da área, sem substituição por novas. Isso ocorre com degradação sócio-econômica. Famílias ou pessoas de maior renda (sejam alta ou média) saem e acabam deixando imóveis vazios. Uma parte é reocupada por pessoas de menor renda. O que acelera a saída dos mais abastados. A existência de "bastiões de resistência", como a Avenida São Luiz pouco influi nas estatísticas.

A segunda é a substituição de moradias por escritórios ou lojas. Esse é um processo que ocorre nos grandes corredores viarios.

O aumento da circulação nessas vias traz dois impactos que promovem a mudança e a redução da população residente. O primeiro é o barulho e a perda do sossego. Isso leva as famílias a mudarem para uma região aparentemente mais sossegada e tem dificuldade de vender ou alugar a casa desocupada, pois pessoas com o mesmo nível de renda, também não querem conviver com o barulho, poeira e trânsito. As ofertas, em geral, são de pessoas com menor capacidade econômica, para as quais morar nas casas ou mansões nesses corredores representa uma ascensão visível. Mas não está dispostas a pagar os valores pedidos pelos antigos moradores.

Quando uma empresa se interessa em instalar um escritório ou loja, pagando os valores solicitados o proprietário - ainda que resista inicialmente - acaba por aceitar. A instalação de um escritório ou loja acaba trazendo novos e acelerando o processo de saída dos moradores. Iniciado o processo a reversão é dificil, quase impossível. O que começa como infração legal acaba sendo legalizada.

Esse processo pode resultar numa requalificação, como em degradação. Em vias de circulação predominantemente de automóveis, o resultado pode ser uma graduação ("up-grade"). Em vias de intensa circulação de transporte coletivo, o resultado é a degradação ("down grade"). O comércio que se instala é para uma demanda de usuários desse transporte, em geral, pessoas de menor renda.

Em ambas as hipóteses há uma redução de população residente. Com pouca ou nenhuma reversibilidade. Por mais que desejem os planejadores urbanos.

O maior processo de redução demográfica de uma área do centro expandido da cidade, no entanto, não decorre de uma degradação, porém de uma requalificação econômica, com a substituição de população de média ou baixa renda, por outros de média e alta renda: mediante a verticalização.

Até o Prefeito Figueiredo Ferraz, que queria "parar a cidade", a verticalização significava adensamento, com uma ocupção integral do terreno, praticamente sem recuos e elevado coeficiente de aproveitamento. A partir da lei de zoneamento, aperfeiçoado posteriormente, as ocupações dos terrenos passaram a ficar mais restritas.

Com isso, a população de uma quadra só de "sobradinhos" por um conjunto de edifícios de apartamentos, reduz a densidade demográfica. Alterando, de fato, o que é uma percepção generalizada: a verticalização adensa. Não, a verticalização desadensa, dilui.

Esse processo é acelerado pela implantação do metrô. Ao longo das estações intermediárias e perfiéricas do Metrô, há uma graduação econômica (uma vez que nem todos aceitam que haja uma requalificação) com a verticalização, substituição da população de menor renda, expulsas para mais longe, e redução de densidade.

E a conjugação desses fenômenos que faz com que a área central da cidade de São Paulo perda população. De forma irreversível.

Como o planejamento urbano e as autoridades públicas municipais podem trabalhar com esse futuro?

 

 

 
 

Reurbanização de favelas

Reurbanização e trabalho social

Os governos estão desenvolvendo amplos programas de reurbanização de favelas. Parte por motivação eleitoral.

Mas o mais importante é o reconhecimento de que a melhor solução é a manutenção da população favelada, onde estão - com algumas remoções - no âmbito ou entorno da própria favela, do que as antigas remoções em massa que só repetiram o quadro de pobreza e violência, apenas mais distantes dos centros urbanos.

A permanência da população da favela, com melhoria das suas condições de habitação, mantém os seus vínculos com o trabalho próximo ou acessível (pelos meios de transporte coletivos) e de captação de renda externa à favela.

Isso significa que os moradores da favela trabalham fora dela e auferem uma renda que trazem para dentro.

Em geral são trabalhos de baixa qualificação, com rendimentos percapita baixos, em torno do salário mínimo, mas que formam uma massa importante de renda, em função da quantidade de pessoas. Na Favela Paraisópolis, na cidade de São Paulo, onde moram cerca de 80 mil pessoas, se metade tiver uma remuneração percapita equivalente ao salário mínimo, a renda mensal da favela ultrapassa vinte milhões de reais.

Com tal volume de dinheiro, os comerciantes são os primeiros a se instalarem para captar parte desse volume, vendendo produtos, desde alimentos a supérfluos. Inicialmente são os comerciantes locais. Com o crescimento do mercado local, grandes redes passam a se interessar. Em Paraisópolis as Casas Bahia já se instalaram lá.

A economia da favela gira em torno dessa renda que é captada fora e que também ter parte que sai diretamente para fora. O dinheiro da condução não fica na favela, alimentando o cofre das concessionárias do transporte público. Uma parte pode ficar, na forma de operação de vans, por moradores.

Os cigarros comprados próximo ao trabalho consomem parte da renda que nem chega à favela. Isso sem contar os tributos, contribuições sociais e outros encargos que já são descontados na fonte.

Da renda dos que trabalham fora - caracterizando a favela como uma área dormitório - a parte que circula dentro dela alimenta e multiplica a renda gerando empregos dentro.

Haverá, no entanto, sempre um contingente desempregada ou desocupada, sem trabalho externo ou interno.

Uma parte é formada por pessoas que se recusam a trabalhar. Ficam na dependência da família ou "fazem bicos" para sobreviver. O risco maior é que sejam envolvidos na cadeia econômica do tráfico. Que é uma forma de circular e captar a renda movimentada na favela.

Para melhorar as condições de vida da favela é preciso conseguir, de um lado, que os moradores trabalhadores que conseguem auferir maiores salários em trabalhos externos não abandonem a favela. De outro lado é preciso que os trabalhadores externos gastem mais dentro da favela.

A primeira condição gera uma contradição. A concepção geral é de igualdade, evitando que a intervenção pública gere uma diferença entre os ricos e os pobres da favela. A não diferenciação pode levar à saída daqueles que melhorem a sua condição salarial.

O trabalho social deve buscar a inclusão sócio-econômica da população desocupada, envolvendo - preliminarmente - três vertentes: a capacitação em serviços para venda dentro da própria favela; a produção artesanal para venda interna e externa e a transformação de resíduos em valor.

Essa última trata da reciclagem de resíduos sólidos e sua execução através dos chamados "catadores".

Uma primeira alternativa dentro dessa cadeia é que os catadores façam a coleta seletiva, levando o material coletado a um centro de triagem.

Esse centro de triagem requer um espaço que pode não estar disponível, sendo necessário abrir ou criar dentro da reurbanização.

 
 

China

Visões parciais

Assistindo a um debate sobre a China vejo os mesmos erros que fizeram com que os economistas não percebessem a crise que assolou as finanças mundiais.

A China é vista como a maior credora líquida do mundo. O que é um equívoco. Há uma contrapartida de obrigações que não são consideradas na mesma conta e gera essa falsa impressão.

Ao longo de muitos anos a China recebeu maciçamente investimentos estrangeiros que geraram a grande capacidade produtiva industrial, com a qual exporta para o mundo e aumenta o seu PIB, em níveis de dois dígitos.

Todos esses investimentos estrangeiros, na sua maior parte em dólares norte-americanos, foram convertidos em yuans, para a sua transformação em ativos fixos, e as moedas estrangeiras aplicadas em títulos internacionais, principalmente, do Tesouro Norte-Americano.

Se esse investimento estrangeiro quiser sair, a China tem que usar as suas reservas.

Nem esses investimentos vão sair tudo de uma vez, nem a China vai deixar de manter os seus estoques de títulos do Tesouro Norte-americano. As discussões são marginais, sem entrar no âmago dessa simbiose, porque isso significaria guerra econômica total e uma crise sem precedentes. A dependência entre os EUA e a China é mútua.

A China, no entanto, tem maiores condições de reduzir a dependência do que os EUA.

Para depender menos da China, os EUA precisariam reverter o processo de aumento desmesurado do consumo interno com investimentos na China para produção e atendimento a esse consumo.

Com a globalização, a relação consumo-investimento não respeita os limites nacionais.

Para a reversão, os EUA precisariam reduzir o consumo de produtos chineses. Investir mais em seu próprio território para atender ao seu consumo, o que é pouco viável, em função dos seus custos de produção.

Para reduzir a dependência da China, os EUA terão que buscar outros mercados para produzir para eles. Investiram na alternativa mexicana, mas não deram sequência. E os mexicanos foram superados pelos chineses. Terá que voltar a desenvolver as relações com o México. Outra alternativa seriam os demais paises latino-americanos, principalmente o Brasil. Tentaram isso com a ALCA, mas não conseguiram, pelo medo dos demais paises com a dominação norte-americana.

É importante, entender no processo histórico, que a China não teve medo de uma eventual dominação norteamericana da sua economia. Obrigaram as multinacionais a se associar com empresas chinesas, em geral, estatais. Em função da perspectiva do mercado interno de bilhão de chineses, da mão-de-obra mais barata, escalas globalizadas, aceitaram. Agora, as multinacionais são "prisioneiras" dos chineses e não tem como sair de lá em massa.

O dilema da Google é apenas um exemplo. Abandonar um mercado do tamanho da China, deixando-o para os concorrentes?

A América do Sul teve medo e não aceitou a integração com os EUA. A China não teve e gerou essa simbiose crítica que não pode ser rompida.

A China caminha para ser a maior produtora industrial do mundo, atropelando todos os demais produtores industriais.

A pergunta que deve ser discutida e respondida é que indústria restará aos demais paises, com a avalanche chinesa?

Dentro desse quadro, que indústria restará ao Brasil?

Os chineses tem custos mais baixos de produção em função da escala dos seus empreendimentos, dos custos mais baixos da sua mão-de-obra e de baixa tributação. Essas são as condições estruturais. O câmbio é uma condição conjuntural. Assim como são as restrições ambientais.

A China tem condições de implantar plantas produtivas de mega escala que nenhum outro pais tem. Essa é a sua principal vantagem competitiva.

A mão-de-obra tenderá a aumentar o seu valor, com perda da sua competitividade. Mas isso não se dará no curto, ou mesmo no médio prazo. Porque a China ainda tem um enorme "exercito de reserva": disposto a trabalhar com baixos salários.

Uma das questões críticas estará no aumento dos "encargos trabalhistas". Ou seja, o sistema de proteção social.

A outra grande incógnita está na amplitude da capacidade chinesa de inovação tecnológica.

Nos anos oitenta o Japão emergiu como uma grande economia inovadora, até que perceber que era uma cópia da norte-americana e, em seguida, os avanços japoneses sobre os modelos norteamericanos, foram absorvidos e incorprados por esses, eliminando as diferenças competitivas.

A China é uma grande fabricante de produtos inovadores gerados pelos norteamericanos, como os de Steve Jobs. Tudo o que ele inventa, é manufaturado pelos chineses. A China ainda não conseguiu ser uma inovadora autônoma.

A China vai se tornar - se é que já não se tornou - a maior fabricante de carros do mundo. Mas é apenas em quantidade, sendo que a maior parte é das multinacionais. Não reiventou como a Toyota, que criou o toyotismo.

A sua grande novidade é o carro elétrico, mas ainda sem tecnologia chinesa.

Todos os demais são cópias (bem ou mal feitas) dos carros ocidentais. E ainda não tem o flex.

Agora as empresas genuinamente chinesas estão chegando ao Brasil. Que tamanho de mercado conseguirão alcançar. Os que já chegaram não estão com preços muito menores.

Já descobriram que o que eleva o preço dos carros é o imposto. Não adianta comparar sem considerar a carga tributária. E carro não dá para ser vendido pelo camelô da esquina, fugindo dos impostos.

Ademais carro no Brasil é imagem. Se alguma empresa tentar sonegar os impostos dos carros e for pega, terá o seu "filme queimado" e não conseguirá vender.

O Brasil tem duas desvantagens competitivas na sua indústria, para concorrer com os chineses: os encargos trabalhistas e a carga tributária. E, por enquanto, as restrições ambientais.

A discussão sobre o futuro do Brasil, sobre o seu projeto nacional, passa - necessariamente - por essas questões.

Índice da semana

Semana de 25 a 29 de janeiro de 2010

29 de janeiro de 2010

28 de janeiro de 2010

27 de janeiro de 2010

26 de janeiro de 2010

25 de janeiro de 2010

 
 

Resíduos sólidos

 

O desafio da logística reversa social

A coleta seletiva não funciona, ou funciona mal.

Mesmo em São Paulo, a coleta seletiva representa uma parcela pequena do total e ainda parte dela acaba diretamente nos aterros, por dificuldade de separação.

Uma das razões é a falta de interesse em desenvolvê-la, sendo que alguns acham que "nem vale a pena". Outros desanimados com os fracassos.

A percepção de que a coleta seletiva pode ser um mecanismo de inclusão social, com a participação de pessoas pobres na coleta ou triagem do lixo reciclável, traz consigo uma desvantagem: o "amadorismo" na organização do processo.

Supõe-se que por ser operado por pessoas pobres e sem qualificação profissional os processos tem que ser manuais, sem mecanização (ou automação), pois isso acarretaria redução no uso da mão-de-obra.

O que é um equívoco. Talvez o problemas esteja nos paradigmas, que não são os mais adequados.

Viabilizar a reciclagem do lixo é um grande e complexo desafio que estou buscando entender, registrando aqui as dúvidas e constatações.

O primeiro paradigma a ser avaliado ou contestado é o tratamento da questão como "coleta seletiva". Porque cuida apenas de uma etapa do processo.

O processo todo é de logística reversa.

Essa logística tem um custo, não desprezível. É o custo da coleta "porta a porta", do transporte até uma estação de transbordo e dai para um aterro sanitário, podendo, em alguns casos, ir direto da coleta ao aterro.

O lixo que segue esse percurso só agrega custos. Que é pago - em geral - pelos contribuintes, mediante tributos embutidos no IPTU.

Se parte desse lixo é separado e reciclado, do ponto de vista microeconômico, agrega dois valores: de um lado o material reciclado é pago pelo reutilizador. De outro, reduz o custo logístico.

O valor da venda é apropriado pelo separador. O valor da redução do custo, seria um ganho do contribuinte.

Um pressuposto aceito é de que à empresa operadora da logística reversa não interessaria a coleta seletiva, pois essa reduziria os volumes a serem coletados, transportados e aterrados, pois isso resultaria numa diminuição de receita. O que é verdade, em parte.

Uma empresa que perdesse receita pela redução do volume de lixo coletado, transportado e aterrado, poderia compensar a perda pela receita da venda do lixo separado para a reciclagem. Ou até mesmo fazendo a reciclagem.

O operador logístico tem uma receita por tonelada de lixo coletado, transportado e aterrado, mas tem um custo por esse operação. O seu ganho é sempre líquido, ou seja, receita menos custos. Sendo em alguns casos o custo pode ser maior que a receita.

A reciclagem do lixo deverá ser avaliada - economicamente - a partir dessa composição de receitas e custos.

A logística reversa pode comportar três modelos básicos:

  • as fases iniciais (coleta, separação e transporte até o comprador) de caráter social (vale dizer, catadores), seguindo o processo de forma empresarial (aparistas, sucateiros e similiares);
  • a fase inicial (coleta) de forma empresarial (concessionárias de coleta), com a separação segundo o modelo social (uso de mão-de-obra da baixa qualificação e renda) em estações de triagem, retornando ao modelo empresarial nas fases subsequentes;
  • totalmente empresarial, com uso intensivo de mecanização e automação.

Essa terceira não é adotada porque se supõe que o custo operacional superaria a receita com a venda do material reciclável e também porque isso tiraria a oportunidade de renda dos "triadores", caracterizados como "catadores".

 

 

 

 
 

Resíduos sólidos

 

Reciclagem de embalagens

Grande, senão a maior, parte do lixo reciclável é de embalagens, cujo aumento vem decorrendo de uma cultura da embalagem descartável, substituindo o reutilizável.

Dois casos são os mais notórios: o do leite e o dos refrigerantes.

A distribuição do leite conjugava a logística direta, com a reversa. O caminhãozinho que levava - de casa em casa - a garrafa ou pote de vidro cheio, recolhia o vazio. Que depois era lavado e reutilizado. Foi sendo substituído pela embalagem plástica, e totalmente substituida com o tetra-pack.

Os refrigerantes e a cerveja de consumo domiciliar tiveram, igualmente, a substituição da garrafa retornável pelo PET, não retornável. Ou pela lata, primeiramente de aço e depois de aluminio.

Para a melhoria ambiental, uma primeira ação deveria ser o incentivo à embalagem retornável. Reverter o processo do não retornável, do descartável.

Considerando essa realidade, para a ampliação da reciclagem, estrategicamente, é preciso mudar o sistema de coleta.

As caixas padrão para a coleta seletiva tem uma linguagem genérica que dificulta o diálogo e, consequentemente, a ação.

Em vez de ter uma caixa para metal deveria ter para "latinhas". Qualquer outro metal deveria ir para outra caixa, para recepção de material não específico.

Em vez de uma caixa plástico, deveria ter uma específica para "pets".

Qualquer dúvida que se coloque para o descartador é um dificuldade a mais para o descarte adequado.


 

 
 

Tripê da Sustentabilidade

Um pé só não se sustenta

O movimento ambientalista emergiu e se ampliou em contraposição a um crescimento econômico predatório dos recursos naturais. A fase inicial foi de preservação absoluta.

A compatibilização entre a necessidade de crescimento produtivo, para atender às necessidades dos seres humanos, e a preservação ambiental se deu com o "desenvolvimento sustentável", para garantir às gerações futuras o mesmo acesso aos bens naturais que a geração atual podem contar.

Gerou a figura da "sustentabilidade" cujo conceito tornou-se mais amplo, ainda que usado predominantemente pelos ambientalistas.

O ser humano não quer apenas o acesso aos bens naturais, mas aos bens construidos, aos bens produzidos. Nesse sentido sustentabilidade seria garantir às gerações futuras o acesso aos automóveis da igual ou melhor forma que contam hoje.

O acesso ao veículo poderia ser garantido, ainda que a valores maiores, por eventual escassez de matérias primas, ou novas fontes de energia propulsora, mas a sua movimentação nas grandes cidades não pode ser garantida.

O crescimento da frota torna insustentável a mobilidade urbana.

Novos contingentes de pessoas chegam ao mercado, desejosos de consumo. A sustentabilidade do consumo atual pode se contrapor à sustentabilidade ambiental. Não se pode considerar cada dimensão isoladamente, mas buscar o equilibrio entre essas.

Por outro lado, no mundo atual, as pessoas precisam de renda. Ainda que parte dos serviços básicos, como educação, saúde, infraestrutura viária e outros possa ser obtida sem renda, suprida gratuitamente ao usuário, pelo Estado, para todos os bens e parte dos serviços é preciso ter renda.

Nesse caso, o objetivo da sustentabilidade não está em garantir às gerações futuras o mesmo padrão atual, mas uma melhoria constante e progressiva. As pessoas devem ter, no futuro, maiores rendas e a distribuição global da renda ser menos desigual. Todos devem ter ganhos, mas proporcionalmente, os mais pobres precisam ganhar mais.

Para a conjugação dessas três dimensões gerou-se a idéia ou conceito do "tripé da sustentabilidade" ou "tiple bottom line".

Não basta considerar a sustentabilidade ambiental, mas também a econômica e a social.

Um exemplo concreto para ilustrar essa conjugação está no descarte inadequado do óleo de cozinha usado.

As campanhas para evitar o descarte desse resíduo diretamente na pia, comprometendo a rede de esgotos e contaminando as águas, partiram da perspectiva ambiental. Mais ainda a partir de um falso número que logo se espalhou que um litro de óleo contaminaria um milhão de litros. Hoje se tem um número mais razoável, mesmo assim ainda sujeito a contestações.

A guarda e a reciclagem desse resíduo para a fabricação artesanal de sabão, envolve a dimensão ambiental, social e econômica, ainda que de forma parcial.

A transformação do óleo de cozinha usado, com adição da soda caústica, resolve o problema da rede de esgotos, mas não o da contaminação das águas.

A conotação social decorre da sua prática predominante pelas pessoas de menor renda que, com o seu trabalho, incorporam um valor ao resíduo, na forma de economia de gastos: não precisam gastar para comprar sabão. Em alguns casos essa produção artesanal gera excedentes que são vendidos na vizinhança, gerando renda para os produtores. Para os compradores não há diferenças econômicas, pois continuam destinando uma parte da sua renda para a compra de sabões. Supostamente mais ecológico, mas a sua degradação na água pode ser pior do que de produtos industrializados. O valor é gerado pelo menor custo para o atendimento da mesma necessidade.

A percepção de empresários de que o óleo de cozinha poderia ser mais econômico que os petroquímicos para a produção semiartesanal ou industrial de sabões vem gerando todo um mercado de coleta de óleo usado dos restaurantes, principais geradores desse residuo. Coletam o óleo, prestando um serviço ao restaurante que é obrigado a dar um destino adequado ao resíduo e ainda entregam, em contrapartida, material de limpeza.

Com isso atendem a duas dimensões: o ambiental e o econômico. Evitam o entupimento da rede de esgotos, mas continuam com a contaminação das águas. Agregam valor ao resíduo, porém se apropriam inteiramente desse valor.

Buscam algum atendimento social, pela compra de óleo coletado por catadores de resíduos ou de doações a entidades sociais. Mas é um tripé desequilibrado, com predominância do econômico. Tornou-se um bom negócio, atraindo novos empreendedores, que usam a fachada ambiental para desenvê-lo.

Na busca de maior equilibrio entre as dimensões formulamos e estamos implantando um programa duplamente sustentável, com agregação de valor e inclusão social.

Esse programa, denominado Bióleo, empreendido através do Instituto PNBE de Desenvolvimento Social busca coletar o óleo de cozinha residual para destiná-lo à produção de biodiesel. Evita o entupimento dos esgotos. Não contamina as águas e reduz a emissão de gases de efeito estufa. Isso porque o biodiesel, ainda que as emita a faz em níveis bem menores que o diesel mineral.

A coleta do óleo residual se faz, predominantemente, através de entidades sociais que mobilizam a população no seu entorno, captam óleo de bares e restaurantes próximos, e auferem renda para desenvolver os seus programas educacionais, culturais ou assistenciais.

Dessa forma o Programa Bióleo agrega valor ao resíduo, contribuindo para a formação do PIB (sustentabilidade econômica) e promove a inclusão e o desenvolvimento social (sustentabilidade social)

 
 

Aniversário de São Paulo

 

Cinquenta anos em cinco, quinhentos em cinquenta?

Quando se vive as circunstâncias é difícil perceber as mudanças maiores.As reminiscências embaralham fatos e datas.

Paulistano há mais de setenta anos, com poucos momentos fora da cidade (quando fui estudar no Rio de Janeiro), uma das lembranças mais fortes é a transformação o Ibirapuera, no início dos anos cinquenta.

Morador perto do parque, na ladeira da Manoel da Nóbrega, diria que a "cidade" terminava na Tutóia. A partir dai já era campo e mato. Apenas o quartel do Exército. Mais adiante, passando pelo córrego uma grande floresta urbana, dentro da qual havia um campo de futebol, onde treinava a Portuguesa dos Desportos.

Não tenho claro se o projeto modernista de Niemayer alavancava uma nova cidade, ou já era o resultado de uma modernização em curso, de uma cidade que não podia parar: parar de crescer.

Por que a cidade de São Paulo crescia mais que as outras? Por que havia tanta concentração produtiva em São Paulo e não em outros estados ou cidades?

A economia brasileira era movida a café. São Paulo era um entroncamento logístico, mas o comércio do café se localizava em Santos. Os negócios eram feitos parte em Santos, parte em São Paulo. Mas ai começou um processo de concentração dos negócios em São Paulo, com o esvaziamento de Santos.

Por que isso ocorreu? Há sempre explicações sociológicas, de caráter macro, mas pouco se conhece sobre os protagonistas que efetivamente promoveram as mudanças. Quem foram as pessoas que passaram a centralizar as suas atividades na cidade de São Paulo, fechando os escritórios em Santos?

A visão (ou lembrança) ainda é de uma cidade que cresce em função do comércio e dos serviços.

São Paulo não era o principal polo industrial do país, no início dos anos cinquenta.

Mas ai vem Juscelino Kubistchek que, apesar de mineiro, promove uma grande industrialização - substituidora de importações, concentrada em São Paulo, na sua região metropolitana. Em  São Paulo fez cinquenta anos em cinco.


Acelera-se um processo dinâmico de alta concentração econômica que, traz consigo, uma concentração demográfica, com as levas de imigrantes entre esses uma certa Dona Lindu, com os seus filhos, um deles de nome Luis Inácio.

A indústria paulista gera renda e empregos. Mas, principalmente demanda. Um círculo virtuoso (ou vicioso) promove um sucessivo crescimento, pleno de distorções, que foram conformando a grande metrópole.

Nesse meio tempo, várias foram as tentativas de planejamento, todas com resultados diversos do pretendido. Porque se baseavam na "utopia". Numa cidade desejada por poucos (os planejadores, em grande parte urbanistas), acreditando que o Estado seria capaz de determinar ou induzir a organização da cidade. Não determinou. Induziu, sim. Mas para uma ocupação equivocada, caracterizada por muitos como desordenada. Ao contrário, ordenada pelo mercado.

Seria São Paulo uma cidade planejável, com um crescimento ordenado?

Poderia ser, desde que se abandonasse a simbiose de planejamento com utopia.

Planejar uma cidade não é desenhar uma cidade desejável no futuro. É orientar o seu crescimento, com pleno conhecimento das implicações e impactos de cada intervenção pública, assumindo que a dinâmica da cidade é movida pelo mercado, pelos interesses capitalistas.

Planejar, com base em preconceitos, como a tentativa de contraposição à "especulação imobiliária" é um caminho certo para o fracasso.

Qualquer tentativa de planejamento urbano tem que partir do reconhecimento da dinâmica da riqueza - essa movida pela tal "especulação imobiliária" que, por sua vexz puxa a dinâmica da classe média. E, do outro lado, a dinâmica da pobreza que busca se estabelecer nas espaços inadequados deixados pelas demais dinâmicas.

O processo histórico que  trouxe a conformação atual da cidade mudou. São Paulo não é mais uma cidade industrial. É uma cidade de serviços. De capital provinciana tornou-se uma cidade mundial.

A riqueza quer (re)tomar as áreas deixadas para a pobreza. E as chuvas confirmaram que as áreas deixadas para a pobreza eram - efetivamente - inadequadas.

Índice da semana

Semana de 18 a 22 de janeiro de 2010

22 de janeiro de 2010

21 de janeiro de 2010

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